Quinta-feira, Maio 05, 2005

correntes

O prezadíssimo Roberson me repassou esta corrente e eu não resisti:

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Uhm. A Bíblia?

2. Já alguma vez ficaste caidinho(a) por um personagem de ficção?
Não sei bem se compreendo o "caidinho", mas, enfim, não sem um certo constrangimento posso citar Jay Gatsby ("O grande Gatsby") e, por que não?, o próprio Macunaíma.

3. Qual foi o último livro que compraste?
"Equador", de Miguel de Sousa Tavares

4. Qual o último livro que leste?
"O desencantamento do mundo", de Antônio Flávio Pierucci, e "Perspectivas sociológicas", de Peter Berger.

5. Que livros estás a ler?
"Amor líquido", de Zygmunt Bauman, e "Como o futebol explica o mundo", de Franklin Foer.

6. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
A Bíblia (sempre tive vontade de ler de cabo a rabo); "Cem anos de solidão", Garcia Marquez (apropriadíssimo); "A montanha mágica", Thomas Mann; "Casa Grande & Senzala", Gilberto Freyre; "O individualismo - uma perspectiva antropológica", de Louis Dumont. Ah, e o "Ultimate Hitchhiker's guide to the galaxy", do Douglas Adams (o volumão com todos os livros da série).

7. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Olha, rapaz, tá difícil. Andei olhando e parece que todo mundo já respondeu...

Domingo, Maio 01, 2005

e agora algo completamente diferente*

Toda grande arte é aquela que re-une o indivíduo e o social. E isso é especialmente verdadeiro para a literatura. Não, não estou defendo que a boa arte é a arte engajada; pensar assim é conceber a sociedade de uma forma tacanha demais. A grande arte é a reinsere o indivíduo no mundo, o mundo humano e, logo, social. Masturbações psicológicas à la "Spider", do superestimadíssimo David Cronenberg, são completamente estéreis: mostram apenas um sujeito enamorado de sua própria inteligência e constróem um mundo de puro verniz e nenhuma substância.
É naquele momento em que o pessoal e o social são costurados com elegância, destreza e sobretudo discrição que um filme ou um livro vira um grande filme ou um grande livro. É o momento em que nem o pessoal subordina o social nem vice-versa: os personagens não são usados meramente como símbolos para "grandes questões" mas tampouco são senhores deuses todo poderosos e auto-absorvidos.
Jay Gatsby, Santiago Nasar, Pantaleão Pantoja, Aureliano Buendía, Pedro Páramo, Fridolin, Arturo Bandini, Arthur Dent; todos eles são magníficos porque são vivos. E isso é um chavão, mas é verdade. Agora, eles são vivos não só porque possuem "densidade psicológica", mas sim porque estão verdadeiramente inseridos no mundo, relacionando-se com ele, construindo-o e sendo construídos por ele. Há todo um mundo entremeado por relações nem sempre bilaterais, valores que não precisam ser colocados explicitamente na mesa, por trás deles e, acima de tudo, dentro deles.
Não estou advogando a adesão a um realismo extremo à la André Bazin, tampouco nego essa possibilidade. Acontece que quando eu abro um livro eu quero abrir uma janela e se a obra em questão não é capaz de construir um mundo orgânico, então, amigo, tô fora. Agora, também é preciso parar com essa mania de que para se construir um mundo vivo e complexo é preciso abrir mão de toda valoração ideológica, de todo discurso pronto e acabado. Essa elegia das ambigüidades também é estéril. É uma assepsia anti-artística. Sua defesa sai da boca das mesmas pessoas que defendem que nosso mundo é "des-ideologizado". Né, não, compadre. O problema dessas pessoas é que elas só gostam de ler o que se encaixa com seus valores pessoais. O que foge disso é "ideologizado". Não. Pode-se formular discursos explicativos sim.
Não devemos (sempre) amar as ambigüidades. Este tipo de arte é muito mais difícil, aliás: o sujeito que consegue construir um discurso artístico coerente - político ou não - capaz de sensibilizar o Outro é um gênio. Porque todos nós temos consciência da diversidade do mundo, do fracasso dos modelos explicativos mais comuns. Nossa reação é de rejeição de tudo que tenta dar união e sentido ao mundo. Se alguém consegue fazer isso sem nos assustar, então tal sujeito é um gênio. Porque, acima de tudo, é necessário dar um sentido ao mundo. É imprescindível generalizar. A própria linguagem não é senão uma forma de generalização. Falamos em árvores, cadeiras, o diabo a quatro. Mas sempre se pode ser chato e dizer que não existem verdadeiramente duas árvores iguais no mundo. Verdade e mentira. Porque no "essencial" elas são iguais. Agora, esse "essencial" é relativo e negociável. Mas nós sempre trabalhamos com algum "essencial", enfim, com conceitos.
Valeu, é bom ter consciência do caráter instável e relativamente artificial destes conceitos, mas não podemos abrir mão deles. Então não há cabimento em exigir da arte que o faça. Quem o faz - e geralmente se faz isso em nome da 'democracia', contra a 'arte engajada' - respira puro autoritarismo.
O que isso tem a ver com o início do texto? Absolutamente nada.
Sinceramente, se eu aplaudo nosso tempo em algo é no seu apego à existência. Ao fim de descrições excessivamente psicanalíticas. Hemingway quase estragou "O velho e o mar" com o papo dos sonhos com leões. Mas não o fez: se ateve à superfície, à existência, e com isso destrinchou a essência. Chegou lá, próximo de dizer o indizível. Mas Saramago também o fez e, ainda assim, seu "Ensaio sobre a cegueira" tem nítida coloração ideológica. Tem sentido, tem senso de propósito, está imbuído de uma idéia profundamente moderna - e tão pouco pós-moderna - de que é possível de alguma forma compreender o mundo melhor, pensar sobre ele, teorizar. Nosso tempo é o da vitória da experiência sobre a teoria, sobre a razão especulativa. Pois eu digo que é quando a razão especulativa pula para dentro desse mundo e dá uma bitoca no beijo da experiência que a Grande Arte nasce, os horizontes se alargam e os passarinhos cantam.
É por isso que eu não aguento filmes-sobre-filmes ou livros-sobre-livros ou histórias-sobre-a-arte-de-contar-histórias ou labirintos-socio-psico-afetivo-existenciais.
Fez sentido?
* Reservo-me o direito de falar bobagens.

the four tops - the same old song

You're sweet as a honeybee
But like a honeybee stings
You've gone and left my heart in pain
All you left is our favorite song
The one we danced to all night long
It used to bring sweet memories
Of a tender love that used to be


Now it's the same old song
But with a different meaning since you been gone
It's the same, same old song
But with a different meaning since you been gone

Ah, oh a sentimental fool am I
To hear a old love song
And wanna cry
But the melody keeps haunting me
Reminding me how in love we used to be
Keep hearing the part that used to touch our hearts
Saying together forever
Darling, breaking up never

It's the same old song, can't bear to hear it
But with a different meaning since you been gone
(Oh, it hurts to hear it)
It's the same old song
But with a different meaning since you been gone

Precious memories keep a lingering on
Every time I hear our favorite song
Now you've gone
Left this emptiness
I only reminisce the happiness we spent
We used to dance to the music
Make romance to the music

Now, it's the same old song
But with a different meaning since you been gone
Now, it's the same old song
But with a different meaning since you been gone
I, oh I
Can't bear to hear it
It's the same old song
But with a different meaning since you been gone
(Ooo, it breaks me up to hear it)
It's the same old song
But with a different meaning since you been gone

Sábado, Abril 30, 2005

'the beatles - the first US visit'

“O que nós vemos das coisas são as coisas”, escreveu Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, em um poema consideravelmente existencialista, na medida em que postula que a existência precede toda e qualquer essência, toda vontade de aprisionar o mundo em significados apriorísticos. Por isso, “o essencial é saber ver”. Esta parece ser também a legítima ambição dos irmãos Maysles em seu documentário “The Beatles – the first U.S. visit”. Ver, não explicar. Todo o filme é um esforço no sentido de registrar – não teorizar sobre – a passagem meteórica e triunfante da banda pelos Estados Unidos em 1964.
Não há narração em off, a edição é parcimoniosa e respeita a cronologia dos acontecimentos, há todo um cuidado para não aprisionar as imagens, não colocá-las a serviço de um significado já dado, pelo contrário: busca-se justamente a valorização daquilo que é filmado, a força das imagens. Uma proposta, em suma, bastante diferente da adotada pelos Michael Moores da vida, que usam as imagens apenas para validar os pontos de vistas expressos pela narração. Os irmãos Maysles trilharam a direção oposta: em seu filme, é preciso “saber ver”; os Beatles só se revelam em seu comportamento diante da câmera. Fora disso não há nenhum subsídio para o espectador construir seu entendimento.
A câmera é uma testemunha, não um sujeito. A ambição, no entanto, não é a de torná-la oculta: em diversas ocasiões os músicos denunciam sua presença. Mas em nenhum momento o filme subjuga a realidade. Não se lança mão formalmente de entrevistas individuais, trilha sonora ou de qualquer outro artifício. A idéia é deixar a realidade correr solta e observá-la. Ver sem pensar, diria Fernando Pessoa. O interesse está na existência, não na significação mais profunda. No documentário mais tipicamente griersoniano, dá-se o oposto: um determinado ponto de vista acerca de um assunto X é proposto. Todo o trabalho, então, é no sentido de convencer o espectador.
Uma objeção, no entanto, pode ser feita. A questão da significação não pode jamais ser evitada. Nenhum filme se faz sozinho. O próprio ato de editar já impõe limites e sugere interpretações. Um filme é acima de tudo um discurso. Aí está o ponto fraco de “The Beatles – the first U.S. visit”. No cinema, a forma determina o objeto mais do que a matéria. Só que forma, em geral, induz a um significado e os irmãos Maysles provavelmente estavam querendo fugir disso. O resultado, neste caso específico, foi uma reverência excessiva do filme pela sua matéria-prima. O “princípio formal” foi menosprezado face ao “princípio material”, muito provavelmente para fugir da prisão do “significado último”. O efeito colateral disso se fez sentir no ritmo do filme: as seqüências inteiras dos shows nos programas de Ed Sullivan, por exemplo, quebram o andamento. As mesmas músicas são repetidas um punhado de vezes em situações diferentes; o que era para constituir os “momentos fortes” do filme acaba sendo tedioso.
Esse não é o único problema. Os músicos repetidamente se dirigem à câmera para fazer as mesmas piadas. De início, o impacto é positivo: somos lembrados que aqueles quatro sujeitos ali são, na realidade, garotos bastante comuns. Gente como a gente. Entretanto, a partir de determinado momento, os gracejos só conseguem causar bocejos. O espectador passa a ter a sensação de estar diante de um monte de irrelevâncias entremeadas com um punhado de momentos realmente interessantes. É essencial “saber ver quando se vê”, escreveu Fernando Pessoa. Os irmãos Maysles não conseguiram fazê-lo plenamente. Olharam muito, mas nem sempre viram. Menos do que ‘revelar’ os Beatles diante da câmera – muito embora algumas cenas sejam fantásticas, como a conversa que os ingleses têm, por telefone, com o locutor de rádio – esta acabou sendo usada por eles como um brinquedo, no sentido mais descartável do termo. Faltou o pulso firme e a sensibilidade na edição para encadear momentos fortes e fracos, para dosar a entrada das músicas, para efetivamente fazer do filme um sucesso enquanto filme, ou seja, um produto autônomo, portador de suas próprias qualidades. O respeito excessivo pela sua matéria-prima impediu que tal objetivo fosse atingido de forma satisfatória. Foi um tiro no pé, que acabou por enfraquecer o poder das imagens. Porque, em cinema, matéria-prima e forma não podem ser separadas de fato; elas só existem juntas. A matéria-prima continha em si infinitas possibilidades. Faltou aos irmãos Maysles ousadia para moldá-la de forma eficaz. “The Beatles – the first U.S. visit” poderia ter sido um filme sensacional, mas, no fim das contas, é valioso apenas como documento histórico para os mais ferrenhos beatlemaníacos.

Sexta-feira, Abril 29, 2005

super-homem

"Fãs preocupados com o visual gay do Super-Homem".
Aí eu páro e penso: só notaram isso agora?

(...)

Em 1998, o sociólogo francês Alain Touraine, então com 73 anos, publicou o livro “Poderemos viver juntos?”, obra na qual analisa o mundo contemporâneo a partir da disjunção entre economia e cultura, especulando sobre possíveis caminhos que possibilitem a comunicação entre grupos sociais cada vez mais diferenciados. Hoje, aos 80 anos, o acadêmico continua na ativa, tendo lançado seu último livro há cerca de três meses.
E daí? Bem, o que importa aqui não é o arcabouço conceitual proposto pelo sociólogo ou a abrangência de suas idéias, mas sim uma pergunta muito simples: como ele ainda consegue se importar com este mundo? Por que Touraine se debruça sobre um futuro que possivelmente não chegará a ver? E ele não é o único. Aos 87 anos, o historiador Eric Hobsbawm ainda publica regularmente livros e artigos. O caso do antropólogo Claude Lévi-Strauss, de 97 anos, é semelhante: embora hoje já não escreva com tanta freqüência, sua produção intelectual permaneceu constante pelo menos até meados dos anos 90.
A insistência destes homens é extraordinária. As idades avançadas, o pensamento científico, decididamente intramundano e não-religioso, e o interesse persistente por um mundo que seguirá adiante mesmo depois de suas mortes. Trata-se de uma combinação que nem todos teriam a capacidade de suportar. Talvez os três tenham recusado (ou adiado) a aposentadoria por vê-la pelo seu lado mais cruel, como uma morte por antecipação, morte social e simbólica. Afinal, a aposentadoria, ao mesmo tempo em que proporciona um descanso merecido a quem trabalhou por toda a vida, também é, de uma forma ou de outra, uma maneira de proteger a sociedade – ocidental moderna – contra o tabu da morte. A morte não é mais um evento público e não queremos que ela seja. No fundo, não foi isso que tanto nos incomodou na morte do Papa João Paulo II? Muitos o criticaram: para estes, o Papa não tinha direito a ‘morrer’ em público, a imagem de sua decadência física era quase uma obscenidade. Assim como os elefantes africanos, o idoso e o moribundo devem afastar-se do mundo para morrerem em paz.
É justamente pelo fato de tal perspectiva ser aterradora que a recusa de Touraine, Hobsbawm e Lévi-Strauss em evadir-se do mundo é heróica. Não por ser uma vitória contra o tempo, o que é impossível, mas sim porque expressa um grau de envolvimento com o mundo, de apego a este mundo, que não só é coerente com as suas trajetórias intelectuais como também reflete o desejo muito humano (e pouco racional) por mais vida. Afinal, pelo menos desde o século XIX a morte deixou completamente de fazer sentido. Tanto quanto a vida, diga-se de passagem.
Diz-se que, na visão moderna, morrer equivale a sair do cinema no meio do filme. É uma analogia adequada e perturbadora. A morte virou mesmo um tabu, sendo deslocada para locais específicos fora do cotidiano, como hospitais e cemitérios, ao mesmo tempo em que se instaurou um culto à juventude eterna, claramente derivado das sucessivas revoluções industriais e tecnológicas e das mudanças sociais e culturais. Isto se deu a tal ponto que é quase impossível não pensar que Alain Touraine, em vez de estar preocupado com as condições futuras da vida social, deveria estar centrado exclusivamente em si mesmo, aterrorizado pela perspectiva da morte iminente. Para o bem ou para o mal, o nosso mundo foi ‘secularizado’ e o indivíduo tornou-se senhor de si mesmo e unidade básica de medida das coisas. Se, por um lado, isso possibilitou conquistas fantásticas, às quais não podemos renunciar, por outro, também acarretou perdas irreparáveis. Na prática, passamos a acreditar que não existe nada no universo mais importante do que o ‘eu’, um ‘eu’ que é totalmente livre mas que, infelizmente, não passa de um espasmo de consciência em meio a um grande vazio.
Criamos, então, uma armadilha para nós mesmos? Muito provavelmente. O preço da liberdade foi a desorientação, o que, por sua vez, justifica perfeitamente a contra-reação religiosa que se observa hoje. Mas nenhum dos dois caminhos é inteiramente viável. Não é possível voltar atrás, não é possível a religião ou qualquer outra representação coletiva dogmática (re)absorver o mundo dentro de si. Tampouco é viável que se viva eternamente em um limbo puramente discursivo em que não se vê verdade em nada, a não ser no indivíduo isolado, todo-poderoso e mortal. No fim das contas, este é o drama do homem hoje. Drama pessoal e social, pois não é a sociedade que nos transmite os valores pelos quais nos orientamos no mundo? Mais ainda: não é na sociedade que um homem se torna efetivamente um homem? Bem, se assim o é, então talvez o mundo seja bem menos fragmentado do que nós pensamos. Se a relação entre o individual e o social é mais estreita do que se admite, se um está umbilicalmente ligado ao outro, se o drama pessoal é também (e principalmente) social, então talvez Alain Touraine tenha - ao contrário do que pensamos inicialmente - resumido todo o problema em sua pergunta fundamental: poderemos viver juntos?

Quarta-feira, Abril 27, 2005

ah, os anos 90

Em algum momento, na primeira metade dos anos 90, nós fomos felizes. O mundo até parecia que tinha jeito. Não, não que tudo estivesse bem (não estava): guerra na Bósnia e no Iraque, chacinas em Vigário Geral e na Candelária, morte dos Mamonas Assassinas e de Ayrton Senna. Mas o futuro parecia tão brilhante que sua luz iluminava o presente, por tabela.
E isso não foi só no Brasil não, violão. O período que foi mais ou menos da queda do Muro de Berlim até (no máximo) o caso Monica Lewinsky foi uma época bacana no mundo todo.
Senão, vejamos. O Brasil todo se sentiu limpo e honesto quando enxotou Collor do poder (e mais ainda depois que os anões do orçamento dançaram). Aí veio o Plano Real; a inflação morreu, todo mundo comprou eletrodomésticos e a classe média foi à Disney. Em tempos de paridade real-dólar, o Brasil ainda abocanhou a Copa de 94, depois de um jejum de mais de vinte anos. O consumo cresceu, o desemprego encolheu, um intelectual de prestígio internacional foi eleito presidente com a promessa de modernizar o país, a internet começou a engatinhar por aqui, os primeiros efeitos da globalização começaram a dar as caras. Tudo lindo.
Lá fora, os EUA, comandados por Bill Clinton, testemunhavam anos de crescimento econômico fabuloso; a bolha da internet começava a se formar, os negócios estavam em ebulição. E não foi só isso: a internet nos anos 90 foi o sonho dourado do capitalismo; jovens cheios de espinhas mundo afora só precisavam de boas idéias e um pouco de conhecimento para virarem milionários da noite para o dia. Os mais puros self-made men que aproveitaram oportunidades que há décadas já não existiam nos negócios tradicionais - imensamente concentrados em torno de multi-nacionais e cada vez mais sofisticados. Uma baita mudança cultural, de fato, ao menos no imaginário do grande público; os novos milionários eram jovens com pouquíssima semelhança com os yuppies engravatados dos anos 80 que devotavam todo seu tempo às grandes corporações.
Crescimento econômico dos EUA é crescimento no mundo todo; na Inglaterra os trabalhistas voltaram ao poder depois de incontáveis anos de governo conservador. Tony Blair era carismático, jovem e amigo de roqueiros. Aliás, notável também foi o renascimento cultural inglês: o britpop deslanchou, Oasis e Blur emularam uma nova rivalidade Stones-Beatles etc etc. O grunge saiu de moda junto com Kurt Cobain; no seu lugar, pura alegria. "Mad for it" era o bordão dos irmãos Gallagher. E como negar a vitalidade de "Girls & Boys", "Common People", "Beautiful Ones" etc? E não ficou só no rock não: o sucesso mundial das Spice Girls, com suas canções de balançar os sovacos, logo desencadeou uma nova onda de boy e girl bands. O romantismo estava no ar: Backstreet Boys, N'Sync, o diabo. Peguem a ex-virgem Britney Spears: de lolita casta a cachorra em apenas alguns anos. Sinal dos tempos.
Isso tudo está cheirando a saudosismo barato? Está sim. E é. Não há problema nisso. Até porque toda a euforia era mais ilusória do que real; foi, talvez, um último suspiro da nossa fé no progresso. [ok, insiram aqui a referência sarcástica a Fukuyama e seu imbecilóide conceito de "fim da história"] Assim como na era de ouro do Estado do Bem-Estar Social, pode-se dizer que tal otimismo estava desde o primeiro momento fadado ao fracasso, porque foram as próprias contradições internas do mundo que levaram a seu fim. Basta ver o Plano Real: venderam a ilusão de que o real podia se equiparar ao dólar, nós compramos, viajamos, trouxemos todo tipo de muamba e depois falimos porque o câmbio paritário exauriu nossas reservas. Acontece. As crises dos Tigres Asiáticos e da Rússia? Parte do jogo. Não existe capitalismo sem crise. A internet? Idem. Entusiasmo demais para algo que era rentável de menos; a bolha estourou.
O que isso tudo quer dizer? Bem, não muito, talvez. Apenas que nós vivemos uma época - mui curta, é verdade - como poucas, de verdadeiro otimismo. Nunca mais isso vai se repetir? Palhaçada, provavelmente vai. Talvez dure até por mais tempo, como a "era de ouro" do pós-guerra durou, a chamada "modernidade organizada". Acontece que "os bons tempos" parecem, hoje, muito distantes de nós. Tudo se passou há menos de quinze anos e nós já somos capazes de olhar para trás e dizer, suspirando, "ah, como éramos ingênuos, ah, tudo era possível, ah, os bons tempos". Mais do que nunca, a conjunção cósmico-política-econômico-social-esportiva-cultural que nos deu por uns bons anos um friozinho gostoso na barriga parece longe, longe demais para sequer ser vislumbrada, exceto pelo caminho da nostalgia.

Segunda-feira, Abril 25, 2005

o mundo

O mundo é bastante sem graça, mas a coisa bonita dele é que mesmo as "filosofias de vida" mais chinfrins do mundo - como os famosos "viva um dia de cada vez" e "o que se leva da vida é a vida que se leva" - carregam dentro de si décadas, séculos de história. O pensamento do homem teve que passar por mil caminhos e descaminhos; cada um deles está ali, escondido no cantinho, no coração de uma frase besta dessas. Viu, vó?

país legal

"Aí, nosso país é pobre e grande. Bora construir uma cidade no meio do nada, um imenso elefante branco de arquitetura duvidosa que possa ser nossa nova capital? Imagina só, uma cidade novinha, limpinha, sem nenhum atividade econômica que não o serviço público!".
"Bora!".
E assim foi.

Domingo, Abril 24, 2005

kramer, cosmo.

"Kenny Kramer inspired the popular Cosmo Kramer character.
Kenny Kramer is the model for character of
Cosmo Kramer in the sitcom Seinfeld. Just as the character of Jerry Seinfeld lived across the hall from Cosmo Kramer in the television show, Seinfeld co-creator Larry David lived across the hall from Kenny for six years. Before he became a model for Cosmo Kramer he was stand-up comedian and was manager of a British reggae band. During the disco years Kenny created an electronic jewelry item that sold so well that Kramer was able to live comfortably long after disco died. From 1996 he is the host of Kramer's Reality Tour and Kramer's Reality Road Show. Seinfeld even did an episode spoofing Kenny's tour when Cosmo Kramer started The Peterman's Reality Tour in "The Muffin Top" episode. In 2001, Kramer ran to become the mayor of New York City, as a Libertarian candidate."

hrm

Da série "tentativas frustradas da imprensa de criar gírias e bordões":
  1. Lembram-se que, quando "Malhação" foi lançada, tudo quanto era jornalista inventou de chamá-la de soap rap? Inacreditável.
  2. E as tentativas ridículas do InformáticaEtc (caderno de informática d'O Globo) de chamar usuários de computador de micreiros?

E o povo ainda é pago pra isso. Francamente.

ratzinger (pela última vez)

Há que se ter uma simpatia por Bento XVI; menos do que "reacionário", "retrógrado" etc etc, eu o vejo como um sujeito com colhões o suficiente para não tratar a Igreja como um produto que deve ser reformulado para atender as exigências do mercado. Está certíssimo. A Igreja se crê a-histórica e baseada em verdades absolutas. Como explicar mudanças bruscas? (já escrevi posts sobre isso antes, eu sei)
Ratzinger deve ser elogiado por isso. Para ele, aparentemente, mais vale ter meia dúzia de fiéis convictos do que um bilhão de fiéis relapsos. Promover a adequação da Igreja com as práticas do mundo moderno vai contra tudo o que ela significa e só iria empobrecê-la. Novamente: não se trata de um produto que deve atender às demandas do mercado. Não se pode "customizar" a fé. Ninguém é obrigado a ser católico. Se a postura conservadora da Igreja afastar fiéis, ótimo: quem sabe o catolicismo não acaba perdendo essa pecha (nociva) de "religiosidade inercial"? Afinal, nada mais absurdo do que o conceito de "católico não-praticante".
Pode-se argumentar que o conservadorismo da Igreja é um problema porque esta exerce pressão política nos governos e impede a adoção de políticas importantes (distribuição de preservativos, planejamento familiar, o que for). Está certo. Isso é de fato inadmissível. Mas eu contra-argumento: por que cargas d'água a Igreja consegue efetivamente ser bem sucedida em suas pressões? Ora, o motivo é simples: ela tem poder político porque representa as crenças de um sem-número de fiéis.
Assim, a discussão sai do âmbito religioso para o cultural: se desse a louca em Bento XVI e ele decidisse amanhã que a comunhão vai ser feita com chopp e linguiça, certamente não seria seguido pela grande massa de católicos. Os comportamentos, as mentalidades, enfim, os valores e a cultura são muito menos flexíveis e invertebrados do que se pensa. A Igreja faz os fiéis do mesmo modo que os fiéis fazem a Igreja. Quantas noivas casam virgens a cada ano? O próprio conceito de "católico não-praticante", aliás, está diretamente relacionado a esse fato: a Igreja é um dos fatores importantes na construção social dos valores, mas não é de forma alguma o único, há muito tempo já não tem mais a influência decisiva que um dia teve.
Defensores do direito de aborto, do planejamento familiar etc etc erram o foco ao crucificar Ratzinger; trata-se de uma luta a ser travada na esfera da sociedade civil. É preciso conquistar corações e mentes; mudanças oficiais na Igreja só virão bem depois disso. Basta ver que só no fim do século passado a Igreja admitiu que Galileu estava certo.
Ademais, vale notar: tudo que o conservadorismo religioso (um pleonasmo em si mesmo) quer é a martirização de Bento XVI. Manchetes como "O panzerkardinal", "Ah, meu deus" etc etc só reforçam o sentimento interno de comunidade entre os adeptos do conservadorismo mais arretado; só reforçam seu isolamento e impedem o diálogo decente. Assim não se muda nada. Nunca. A não ser que queiram - qualquer um dos lados - recorrer à violência. Porque os ultraliberais têm que entender, de uma forma ou de outra, que a Igreja é um ator social relevante de fato e encarna uma série de valores muito prezados por fatias muito expressivas da população. Em alguns casos, até mesmo pela maioria desta. E democracia é isso; é o respeito pela opinião alheia. É botar o galho dentro quando se está em minoria.
Como já dizia meu sábio pai: democracia é uma merda. Só é boa quando a gente vence.

"Acossado"...

- é o melhor filme do Godard;
- tem alguns dos melhores planos-seqüência da nouvelle vague;
- ganhou uma fluidez ímpar com os jump cuts;
- tem Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg (como não gostar?);
- é cinematograficamente existencialista; a existência precede a essência? sim, precede: as imagens têm toda uma vida própria, elas insistentemente se recusam a se dobrar ao que está fora do filme, não são jamais usadas como símbolos para algo externo, são valorizadas à enésima potência, são ricas, belas; são uma realidade em si mesmas;
- é, na verdade, existencialista até a alma e o faz muito bem; não pega a mão da platéia e entra no modo "bem, agora vou explicar tudo"; Belmondo e Seberg são o que são; são sujeitos de si mesmos, embora de diferentes modos - ela não pode dobrar-se à amoralidade, mas não escolhe uma moral típica da má-fé; simplesmente o denuncia justamente para afirmar sua própria liberdade, seu individualismo, que é moral no sentido de que não é refém de suas paixões (vide diálogo final entre os dois e também o fato muito bem caracterizado no filme de que Belmondo - por mais que recuse reiteradamente a má-fé e adote uma perspectiva estética e voluntariosa diante da vida - nunca está realmente realmente em único lugar, seus repetidos telefonemas são sinal das pressões que atuam sobre ele e podam sua liberdade);
- é uma ode a Paris (e Paris merece, convenhamos);
- é uma ode ao próprio cinema;
- ganhou, em 1983, um remake americano estrelado pelo Richard Gere (alguém já viu?);
- tem algumas das cenas mais espontâneas da história do cinema (vide seqüência no quarto de Patricia);
- tem diálogos geniais ;
- tem planos sensacionais (ainda melhores que os diálogos);
- é um dos melhores filmes que eu já vi.

Sábado, Abril 23, 2005

Rio de Janeiro

Este post vai começar com uma generalização, mas creio que não estarei forçando muito a barra: não há carioca de classe média hoje que não tenha incorporado um sentimento profundo de decadência. Não, não quero propor soluções aqui; esse é só um diagnóstico.
É sintomático que Lula tenha obtido sua maior votação (proporcionalmente falando, é claro) no segundo turno em 2002 justamente aqui no Rio. O discurso da esperança contra o medo parece ter sido talhado especialmente para nós; nada mais atraente do que a possibilidade - messiânica, populista, demagógica, o que for - de que um voto pode mudar um processo de erosão política, econômica e social que se arrasta há décadas e que só fez ficar mais dramático nos últimos quinze anos. É muito difícil lidar com a sensação de que há apenas uma década as contradições pareciam tão menos evidentes; a violência urbana era significativamente menor; menos insegurança; uma sensação menor de que a miséria lentamente vai contaminando tudo.
É claro que o ideal de um passado idílico em que pobres e ricos convivam harmoniosamente é ridículo. Basta ver a capa da "Veja" da semana passada: a nostalgia é essencialmente por uma época em que "cada um sabia seu lugar"; não há nenhum ideal de diminuição das desigualdades. Só que esse discurso é sedutor - assim como todos os apelos à "ordem", ao "endurecimento" da repressão etc - porque equivale a um sentimento muito real: em retrospectiva, o passado parece idílico, mas só o é porque o presente é caótico. Antes a violência e a miséria restringiam-se às "áreas obscuras", aos subúrbios, favelas e que-tais; a partir dos anos 80 chegou ao coração da zona sul.
A sensação de impotência e de "insolubilidade" (!) do problema é terrível, desmobilizadora, despolitizante, redunda em ações idiotas como o "Basta!" etc etc. Mas é também perfeitamente compreensível. E isso só deixa tudo mais melancólico.

cinema

À primeira vista, este ano vai ser de vacas magras cinematográficas. Só consigo pensar em único filmes que estreou no circuito e fez cair meu queixo: "Ninguém pode saber". De resto, algumas coisas foram legais - "Sideways", "Constantine" - mas foi só. É muito pouco.
O ano passado foi muito mais frutífero: entre janeiro e abril foram lançados vários filmes-que-fazem-você-recuperar-a-fé-na-humanidade, como "Bicicletas de Belleville", "Na captura dos Friedmans", "Dogville", "Rio de Jano" e "Escola de Rock". Isso para não falar de "Peixe Grande" e "Primavera para Hitler", que passaram no Vivo Open Air 2004.

Ratzinger

O Rafael Galvão escreveu um bom post sobre o homem e a Igreja.

Sexta-feira, Abril 22, 2005

new order

"You had the brightest future
Writing songs on your computer" - New Order, "Hey now, what you doing"
Ninguém escreve letras como Bernard Sumner. Ninguém canta como ele também, mas essa é outra história. Não há letras de música melhores do que as do New Order: no limite do patético, terrivelmente auto-conscientes, mas nunca pura e simplesmente 'cínicas', pelo contrário; sobra coração. Faz sentido? Não, não faz. Mas basta ouvir "Every little counts" que tudo se encaixa. Em especial a gargalhada que vem depois dos versos "every second counts / when I am with you / I think you are a pig / you should be in a zoo".

Pesquisa CNT/Sensus de opinião pública nacional - rodada 75 (parte 2)

Além dos questionários eleitores, a rodada 75 da pesquisa CNT/Sensus também incluiu perguntas sobre temas conjunturais.
Os resultados são interessantes, mas é sempre importante ter em mente a máxima de Pierre Bourdieu: a opinião pública não existe. Pesquisas deste tipo criam situações artificiais, impondo a todos as mesmas questões e passando por cima do fato de que nem todos dão a mesma importância às mesmas questões. Ou seja: parte-se da "hipótese de que há um consenso sobre os problemas, ou seja, que há um acordo sobre as questões que merecem ser colocadas", como escreveu Bourdieu. Vale citar:
"Em seu estado atual, a pesquisa de opinião é um instrumento de ação política; sua função mais importante consiste talvez em impor a ilusão de que existe uma opinião pública que é a soma puramente aditiva de opiniões individuais: em impor a idéia de que existe algo que seria uma coisa assim como a média das opiniões ou a opinião média (...) esta opinião é um artefato puro e simples cuja função é dissimular que o estado de opinião em um dado momento do tempo é um sistema de forças, de tensões e que não há nada mais inadequado para representar o estado da opinião do que uma porcentagem. ("A opinião pública não existe", in: Questões de Sociologia, pág.174)"
A idéia do Bourdieu é que os questionários, ao apresentarem uma série de respostas pré-formuladas, obrigam o entrevistado a optar de súbito por uma delas, que não necessariamente é a resposta mais compatível com o pensamento de cada um: é apenas a resposta mais adequada dentre aquelas pré-formuladas. Em outras palavras, isso significa que duas pessoas com pensamentos bastante diferentes entre si podem acabar escolhendo as mesmas opções, seja porque interpretam as questões de forma distinta, seja porque nunca haviam se colocado tal problema anteriormente. É óbvio, por sinal, que a mesma opção pode ser escolhida tanto como a "menos pior" quanto como a "melhor", e que os números ignoram essa diferença, que, no entanto, é brutal. Para finalizar, ainda há o argumento muito sensato de que nem todas as opiniões têm o mesmo valor: por mais antidemocrático que isso possa soar, é natural que determinados grupos têm opiniões muito mais solidificadas do que outros a respeito de determinados assuntos e, sendo assim, seu poder de argumentação e de pressão política é muito maior.
Mas enfim, vamos aos resultados:
Pesquisa de opinião pública nacional - rodada 75
Realizada pelo instituto Sensus.
Encomendada pela Confederação Nacional de Transportes.
Metodologia: 2.000 entrevistas em 195 municípios de 24 estados, realizadas entre 12 e 14 de abril de 2005.
Margem de erro: 3%.
Tem conhecimento do acordo com o FMI? ("Tem acompanhado ou tem conhecimento da decisão do Brasil de não renovar o acordo com o FMI - Fundo Monetário Internacional?")
Tem acompanhado: 11,9%
Tem conhecimento: 19,8%
Não tem conhecimento:
60,1%
Não sabe/não respondeu: 8,3%
O término do acordo foi:
Foi positivo: 17,8%
Não foi positivo:
7,9%
Nem positivo, nem negativo:
2,9%
Não sabe/não respondeu:
3,1%
NSA: 68,4% (?)

Discursos de Lula - gosta ou não gosta?
Gosta:
53,2%
Não gosta:
31,9%
Não sabe/não respondeu: 15,0%
Erros e inadequações:
Comete:
55,9%
Não comete:
24,3%
Não sabe/não respondeu: 19,9%
O presidente deveria:
Fazer discursos de improviso: 38,60%
Fazer discursos por escrito: 39,70%
Não sabe/não respondeu: 21,80%

Apoio político ("O Sr(a) concorda ou discorda da exigência de partidos políticos de participação em Ministérios para dar o apoio ao governo no Congresso?")
Concorda: 39,1%
Discorda: 36,5%
Não sabe/não respondeu: 24,5%
Parlamentares ("Na sua opinião, nas negociações políticas com o governo os parlamentares:")
Negociam o apoio em troca de benefícios pessoais:
59,0%
Negociam o apoio em troca de benefícios para o Brasil: 13,3%
Negociam o apoio em troca de benefícios para os seus eleitores: 9,6%
Não sabe/não respondeu: 18,2%
Planejamento familiar:
A favor: 82,9%
Contra:
12,7%
Não sabe/não respondeu: 4,5%

Método anticoncepcional:
A favor da utilização: 87,2%
Contra a utilização: 9,7%
Não sabe/não respondeu: 3,2%

Preservativos e pílulas do dia seguinte ("O Sr(a) é a favor ou contra a distribuição de preservativos e 'pílulas do dia seguinte' pelo governo a famílias de baixa renda?")
A favor: 84,4%
Contra:
12,3%
Não sabe/não respondeu: 3,4%
Prática de aborto:
A favor:
12,3%
Contra: 85,0%
Não sabe/não respondeu: 2,8%

Aborto em casos de violência sexual:
A favor:
43,5%
Contra: 49,5%
Não sabe/não respondeu: 7,0%

Pesquisa CNT/Sensus de opinião pública nacional - rodada 75

Como nenhum jornal publicou na íntegra os resultados da última pesquisa CNT/Sensus, vou divulgá-los por aqui, dividindo-a em dois blocos. Em primeiro lugar, as avaliações sobre o governo Lula e simulações para a corrida presidencial de 2006.
Os resultados são interessantes. Em oito dos nove cenários Lula venceria ainda no primeiro turno, embora seja fundamental notar que os números revelam inequivocamente que as eleições ainda são algo muito distante para a maioria dos entrevistados. Basta ver que os que não sabem/não quiseram responder têm percentuais expressivos e que, de todo modo, o único candidato que conseguiu mais de 3% na pesquisa espontânea foi Lula, o que é pra lá de esperado, uma vez que ele é o atual presidente. Ou seja: cautela nunca fez mal a ninguém.
Pesquisa de opinião pública nacional - rodada 75
Realizada pelo instituto Sensus.
Encomendada pela Confederação Nacional de Transportes.
Metodologia: 2.000 entrevistas em 195 municípios de 24 estados, realizadas entre 12 e 14 de abril de 2005.
Margem de erro: 3%.
Sobre o governo:
Avaliação pessoal de Lula:
60,1% aprovam (66,1% aprovavam em fevereiro)
29% desaprovam (26,5% desaprovavam em fevereiro)
11% não sabem/não responderam (7,5% em fevereiro)
Avaliação do governo:
Ótimo: 9,6% (9,2% em fevereiro)
Bom: 32,3% (33,4% em fevereiro)
Regular: 39,8% (39,9% em fevereiro)
Ruim: 6,8% (5,8% em fevereiro)
Péssimo: 9,2% (8,1% em fevereiro)
Não sabem/não responderam: 2,5% (3,8% em fevereiro)
Eleições 2006:
Pesquisa espontânea:
Lula: 21,5% (eleito no primeiro turno)
Serra: 2,9%
FHC: 1,9%
Alckmin: 1,9%
Garotinho: 1,5%
Ciro Gomes: 1,3%
Outros: 5,4%
Indecisos/branco/nulo: 63,6%
Cenário I:
Lula: 37,5% (haveria segundo turno)
Ciro Gomes: 10,9%
Garotinho: 10,8%
Alckmin: 8,3%
Cesar Maia: 5,6%
Heloísa Helena: 2,6%
José Alencar: 2,0%
Severino Cavalcanti: 1,3%
Outros: 0,6%
Indecisos/branco/nulo: 20,7%
Cenário II:
Lula: 39,1% (eleito no primeiro turno)
Garotinho:
15,3%
Alckmin: 12,0%
Heloísa Helena:
5,4%
Severino Cavalcanti:
2,9%
Outros: 0,6%
Indecisos/branco/nulo: 24,9%
Cenário III:
Lula: 45,5% (eleito no primeiro turno)
Garotinho: 16,7%
Aécio Neves: 9,0%
Outros: 0,7%
Indecisos/branco/nulo: 28,3%
Cenário IV:
Lula: 43,1% (eleito no primeiro turno)
Garotinho: 14,9%
FHC:
14,7%
Outros: 0,8%
Indecisos/branco/nulo: 26,6%
Cenário V:
Lula: 47,5% (eleito no primeiro turno)
Alckmin: 14,9%
José Alencar: 7,9%
Outros: 0,9%
Indecisos/branco/nulo: 28,9%
Cenário VI:
Lula: 44,9% (eleito no primeiro turno)
Ciro Gomes:
15,6%
Alckmin:
12,5%
Outros:
0,7%
Indecisos/branco/nulo: 26,4%
Cenário VII:
Lula: 47,7% (eleito no primeiro turno)
Alckmin:
14,6%
Cesar Maia:
8,8%
Outros:
0,7%
Indecisos/branco/nulo: 28,3%
Cenário VIII:
Lula: 45,9% (eleito no primeiro turno)
Garotinho:
17,2%
José Alencar:
6,5%
Outros:
0,7%
Indecisos/branco/nulo: 29,9%
Cenário IX:
Lula: 46,1% (eleito no primeiro turno)
Alckmin:
16,6%
Severino Cavalcanti:
7,2%
Outros:
0,8%
Indecisos/branco/nulo: 29,4%
Simulações para o 2o turno:

Simulação I
Lula:
52,90%
Garotinho:
22%
Indecisos/branco/nulo: 25,20%

Simulação II
Lula:
56,80%
Cesar Maia: 15,50%
Indecisos/branco/nulo: 27,80%

Simulação III
Lula:
54,60%
Alckmin:
21%
Indecisos/branco/nulo: 24,40%
Comentários:
a) José Serra não foi incluído em qualquer pesquisa estimulada. FHC também não.
b) Alguns padrões são muito nítidos. Nos cenários de III, IV, V, VI, VII, VIII e IX, ou seja, em todas as pesquisas em que foram dados os nomes de três candidatos, os resultados foram parecidos: Lula conseguiu cerca de 45%, algum outro candidato ficou com cerca de 15% e o terceiro, com 8% (exceto nos cenários IV e VI). O índice de indecisos e dos votos brancos ou nulos também permaneceu estável, por volta dos 30%. O que dizer disso? Bem, o conjunto dos dados dá a forte impressão de que a discussão eleitoral ainda não cativou o público. Nenhum candidato aparece naturalmente como o "anti-Lula"; nas pesquisas estimuladas, o tópico "Outros candidatos" sempre aparece com percentuais baixíssimos, o que indica que as respostas são mais uma reação à pergunta do que produto de uma reflexão. Por isso, os números devem ser interpretados com muito cuidado, apenas como tendências gerais. E é também por isso que eu acho que os altos percentuais de Lula dizem respeito mais ao prestígio pessoal do presidente do que ao seu governo. Da mesma forma, os cerca de 25% que escolheram outros candidatos que não o presidente nos cenários III-IX parecem fazê-lo motivados mais por uma rejeição a Lula do que por uma escolha bem pensada.
c) No cenário I, com oito candidatos, o único em que Lula não ganharia no primeiro turno, é significativo o fato de que Ciro Gomes aparece em segundo lugar, apenas um décimo à frente de Garotinho. Ambos parecem ter sido beneficiados pelo fato de terem concorrido em 2002, é claro: talvez seus percentuais sejam decorrência do grau de "conhecimento" que eles têm. De qualquer forma, vale observar também que, embora neste cenário fossem apresentado oito candidatos diferentes, o percentual de indecisos/brancos/nulos não baixou muito.
d) Tanto o governo quanto o presidente ainda têm uma aprovação boa e, mais ainda, uma taxa de desaprovação muito baixa. As categorias "ruim" e "péssimo", na avaliação do governo, somam, juntas, apenas 16%, contra 41,9% que acham o governo bom ou ótimo (o pessoal só pode ter enlouquecido).

Terça-feira, Abril 19, 2005

só no Brasil

É por isso que esse país é maneiro: já estão consolando o Dom Claudio, como se ele tivesse sido o grande derrotado na competição pelo papado. Já posso até ver a campanha "Dom Claudio é brasileiro e não desiste nunca".

Segunda-feira, Abril 18, 2005

deu no jornal (de novo)

O amigo blogueiro está sem assunto? Bem, vai a dica: não há nada melhor do que ler os jornais. Sempre dá pano pra manga. Vejamos o que teve de bom no Globo de hoje:
a) Editorial (p. 6):
A bola da vez foi o MST. Previsivelmente, o editorial desancou o movimento de todos os jeitos, lançando mão do argumento de que a modernização da agricultura levou à "escassez de terras improdutivas em várias regiões do país". Bem, não estou nem pondo em jogo aqui o mérito ou não do MST; o que quero apontar é que, lá para o meio do texto, o Globo simplesmente recorre a um golpe baixo: o jornal tenta justificar a afirmação de que "o que surgiu (...) para combater o secular problema do latifúndio improdutivo foi se metamorfoseando numa espécie de partido político, com um projeto nítido de poder" em cima do argumento de que uma marcha pela reforma agrária promovida pelo MST foi adiada para não ser ofuscada pela morte do Papa. É muito estúpido isso. Se todo o propósito do MST é chamar a atenção da sociedade civil e agir - politicamente, é claro - para acelerar a reforma agrária, o que o Globo esperava? Que o movimento fizesse marchas durante as madrugadas? Doh. E isso ao mesmo tempo em que o jornal elogia o fato de João Paulo II ter abraçado os meios de comunicação enquanto ferramenta para a evangelização.
b) Ainda editorial (p. 6):
Em que pese a bola fora do editorial do jornal, vale destacar o texto que saiu logo embaixo, a "Outra opinião", como eles chamam: "Deus, o subversivo", de autoria do monge beneditino Marcelo Barros. Nunca vi monge tão ousado. Lá pelas tantas ele diz: "Para mim, o movimento que, no Brasil, mais maifesta este rosto amoroso de Deus não é uma igreja ou mosteiro, mas o MST". A esta hora o pobre do Marcelo Barros deve estar recebendo trocentas chibatadas de Dom Eusébio Scheid e de Dom Eugenio Salles.
De todo modo, é preciso reconhecer que, ao menos uma vez, o Globo foi democrático. Abriu espaços iguais para os dois lados e bancou a publicação de artigo tão polêmico quanto esse. Está de parabéns.
"Nas últimas duas décadas, uma visão cor-de-rosa inspirou os mercados financeiros globais: o novo paradigma do unvierso econômico em permanente expansão. (...) Pois bem, pode estar ocorrendo uma formidável mudança de paradigma.. (...) Boa música para os macroeconomistas especializados em flutuações cíclicas, que andavam meio por baixo com a ininterrupta expansão da economia americana e o forte ritmo de crescimento global".
E por aí vai. Agora, me digam: dá para evitar o sorriso maroto? É essa a prova definitiva de que o mundo enlouqueceu? Um economista ultra-liberal afirmando publicamente que as crises estão inscritas na própria ossatura do capitalismo. O velho Marx deve estar gargalhando.
"Lula e a Igreja" é o título do texto. Denis Lerrer Rosenfield é o autor. A conclusão só pode ser uma: vem bomba por aí. E não há nada mais reconfortante do que ter suas expectativas confirmadas. Trata-se de mais um festival de sandices do nosso querido Denis. O argumento é o seguinte: a Igreja sempre foi unha-e-carne com o PT, mas as recentes críticas de Dom Eusébio Scheid e de Dom Eugenio Salles a Lula indicam que o divórcio é iminente: "A Igreja se encontra na raiz da criação do PT e, durante muitos anos, a CNBB apoiou o partido em tudo que fazia. (...) O divórcio foi, porém, proposto. Logo, a Teologia da Libertação não expressaria mais uma posição quase-oficial de uma parte importante do clero brasileiro; as invasões de propriedades e seqüestros do MST não receberiam mais a bênção religiosa e o PT deixaria de representar a mudança".
Numa tacada só, Denis Lerrer Rosenfield demonstra total desconhecimento acerca da Igreja Católica brasileira. Que setores importantes estiveram na base do nascimento do PT, isso é público e notório; mas também não o é o fato de que há setores tão ou mais influentes no clero que se alinham - e sempre se alinharam - politicamente à direita? Quer dizer que agora a TFP também era petista e não sabia? Quer dizer que o apoio da maior (e mais influente) parte do clero ao golpe de 1964 foi apenas uma jogada para enganar os oponentes? Valha-me Deus: basta ver os nomes da cúpula do CNBB para perceber que a maioria deles inclina-se muito mais à direita do que à esquerda. Se São Paulo tem uma tradição de "engajamento social", com Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Cláudio Hummes, então o Rio está no extremo oposto, do mais puro conservadorismo, com Dom Eusébio Scheid e Dom Eugenio Salles. Para além disso, basta ver o que foi feito de Dom Hélder Câmara, este sim um bispo com engajamento político explícito (grande homem, por sinal). Dom Hélder comprou briga com meio mundo por ter seus ideais firmes, sofrendo as devidas retaliações por isso.
Ou seja: sabem quando houve a tal unanimidade no clero em torno do projeto político petista? Nunca. Há muito tempo o que mais se ouve nos corredores da Rádio Catedral são críticas ao partido, em virtude de suas posições relativas ao aborto e às uniões entre homossexuais. Para além disso, basta ver que, nas últimas eleições municipais, todos os candidatos que tinham vínculos explícitos com a Igreja Católica foram lançados por partidos de direita, como o minúsculo PSC.
É isso aí.

novos links

Depois de longo e tenebroso inverno, adicionei mais links aí do lado. Entraram dez novos blogs: o atualizadíssimo Cinzas de Batalha, o reflexivo Incontinentia Verbalis, as histórias da China de Gilberto Scofield, o multi-interessado Me, myself & I, o dispensa-comentários Pedro Dória, o lúcido Samjaquimsatva, o esperto Smart Shade of Blue, o perspicaz Stuck in sac, o jornalístico Tem uma fala legal e o sensato Uivemos. Todos são plenamente merecedores de visitas diárias.
[sim, copiei tintim por tintim o estilo do Idelber de anunciar novos links. Há que se aprender com quem já faz a coisa certa, não?]

muy amigos

Melhor chamada do Globo Online de todos os tempos: "Jogador do Flamengo é assaltado por amigos". E o mundo continua cada vez mais surreal.

mais rússia

Eric Hobsbawm, sobre Mikhail Gorbachev:
"Was he a great man? I do not know. I doubt it. He was – he visibly continues to be – a man of integrity and good will whose actions had enormous consequences, for good and bad. I regard it as a privilege to be the contemporary of this man. Humanity is in his debt. All the same, if I were a Russian I would also think of him as the man who brought ruin to his country."

vale a pena ler

Artigo do historiador Roy Medvedev sobre Stalin e a Rússia:
"Over 50% of Russia’s population, including teachers, scientists, doctors, and military personnel, have seen their quality of life fall since communism’s demise. No surprise, then, that they are nostalgic for the past, including Stalin.
People of the older generation do, of course, remember the hardships of the 1930’s and 1940’s. But most Russians do not view the entire Soviet period as some sort of black hole. They see a time of hardship, yes, but also of great achievements – in economic development, science, culture, education, and defense of the motherland during the war.
Today, Russians listen to old Soviet songs and watch Soviet-era movies. May 1 (Labor Day), and November 7 (the anniversary of the Bolshevik Revolution) remain much more meaningful than newly installed postcommunist holidays
(...)
What can Russians be proud of in the 15 years of postcommunism? Shock therapy that ruined the economy and gave away the country’s wealth to private but rarely clean hands? Neither democracy nor markets are seen by most Russians as absolute values, because they have failed to deliver either prosperity or security.
(...)
But it would be a mistake to see this public recognition of Stalin as a real yearning for every aspect of the system he created. Instead, acknowledging Stalin is a way for Russians to recall a time of great deeds and perhaps even greater sacrifices. Patriotism everywhere is always based on such notions."

música do dia (tem que dar o braço a torcer)

"I'm in love with Jacques Derrida
read a page and I know I need to
take apart my baby's heart
I'm in love
To err is to be human
to forgive is too divine
I was like an industry,
depressed and in decline" - Scritti Politti, "Jacques Derrida"

Domingo, Abril 17, 2005

O "Fantástico" acabou de exibir mais uma reportagem da série "Instinto Humano". Narrada pelo simpático Lázaro Ramos, a matéria dizia, em resumo, que o instinto materno é decorrência de características biológicas: a "química" existente entre mãe e filho deriva do "instinto" de preservação da espécie em geral e dos nossos genes em particular. Para "provar" tal conceito, recorreu-se a uma uma experiência inglesa que "revelava" que nosso esforço para ajudar um ente querido é diretamente proporcional à percentagem de genes que temos em comum com ele.
Gente, isso é estúpido demais. É biologismo da pior espécie. Não resiste a duas colheres de crítica. Que história é essa de "instinto materno"? É tão difícil assim aceitar que o homem é um ser capaz de reflexão e de produzir cultura? Se há um "instinto materno" então todas as mães do mundo deveriam agir de forma mais ou menos parecida. O que é uma bobagem sem tamanho. Como eles explicam a prática do infanticídio? E as sociedades patriarcais mais ferrenhas que chegam a matar os bebês quando nascem mulheres? [O exemplo da China, depois da implantação do controle de natalidade, vem à mente]. E as sociedades em que a organização familiar é muito diferente do nosso modelo nuclear monogâmico e, portanto, as 'lealdades' também são muito diferentes?
Não vale nem a pena ir adiante. É como aquela capa da Veja que atribuía à genética nosso apego aos animais de estimação. Não é nem o caso de perguntar por que existe gente que odeia bichos; em primeiro lugar, se o determinismo é biológico, então por que cargas d'água o conceito de "animal doméstico" é tão pouco uniforme mundo afora? Por que não gostamos todos dos mesmos animais? Por que os animais não ocupam 'posições' semelhantes em todas as sociedades?
Isso é falta de deus no coração. Blerght.

"Ninguém pode saber"

A atenção pelo detalhe. O equilíbrio perfeito entre encenação e realismo, entre proposta estética e investigação do mundo. Equilíbrio entre o particular e o social, equilíbrio este que só os grandes filmes conseguem. A edição calma, com planos longos, contemplativos; a apreensão de um mundo, a impotência do espectador. As atuações magníficas. O carisma dos meninos. A tragédia que vai avançando de forma inarredável, impassível. O poder do afeto e da afirmação do humano; um quê de indizível que transcende a matéria e a miséria. A angústia. A captura de momentos, do contingente, das circunstâncias, a forma como os momentos particulares são encadeados. A valorização do que é filmado, da imagem, sem jamais perder de vista o horizonte simbólico.
Ai, ai.
É o melhor filme do ano, é claro. E uma das experiências mais pavorosas que se pode ter em um cinema. "Ninguém pode saber" é tão bom que até a resenha da Contracampo acertou em cheio. Até eles deixaram o cinismo de lado por dois segundos.

ah, o mundo

Hollywood é imprescindível para a saúde mental do ocidente. E é genial por isso. Eles sacaram perfeitamente o quão importante é a noção de que "algumas coisas nunca mudam". De que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Questionamento, uma ova. Na falta de outros portos seguros, por que não utilizar o cinema para isso?
É como ouvir o disco novo do New Order: incrivelmente bom. Algumas coisas nunca bom. O mundo fica até tolerável.
Quando a revolução vier, os que dizem que "vieram para confundir e não para explicar" serão os primeiros a ir para o paredão.

Rio de Janeiro

Moderno Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis:
ca.os sm sing
e pl ( gr kháos) 1 Confusão geral dos elementos, antes da formação do mundo. 2 Total confusão ou desordem. 3 O Rio de Janeiro, especialmente as ruas da zona sul nas noites de sábado, com hordas de jovens de classe média-alta com carros gigantescos fechando ruas e cruzamentos e emporcalhando tudo (ver barbárie).

"Festim diabólico"

Duas constatações:
a) Que falta o James Stewart faz a este mundo.
b) Eis aí, finalmente, um DVD cujos extras realmente valem a pena.

Grafite

Não é necessário escrever qualquer coisa a respeito do "caso Grafite". O Idelber já disse tudo que havia para ser dito.

Sábado, Abril 16, 2005

gênio

O jornalista do Globo Ilimar Franco foi enviado a Roma para cobrir a participação de Lula no funeral de João Paulo II. Muito bem, nada demais. Acontece que, graças a um post em seu blog, Ilimar merece o prêmio de Melhor Título de Todas as Reportagens Sobre o Papa de Todos os Tempos: "Vim a Roma e não vi o Papa". Gênio.

viva nossa imprensa

É tão bom quando a imprensa só faz confirmar a opinião que já temos dela. Primeiro foi com a Bolívia: nossos jornais são tão bons que só ficamos sabemos da crise institucional boliviana no momento em que o presidente Carlos Mesa fez que foi e não foi e acabou fondo e pseudo-renunciou. Agora, a bola da vez é o Equador: "Equador dissolve a Suprema Corte e decreta estado de emergência em Quito". Notícia que surgiu "do nada". Ou alguém aí sabia das tensões políticas equatorianas?

nhenhenhém

Da coluna do Jorge Bastos Moreno:
"Gente, só com o Papa morto o ateu FH poderia cometer o sacrilégio de receber a sagrada comunhão no Vaticano.
— E sem confessar, Excelência? — cobrou a coluna.
— Eu não tenho pecados. Aliás, nem originais. São todos geniais.
É uma figuraça, o FH."

ugh

Se:
- alguém diz a frase "li X quando tinha Y anos"

E:
- X = Joyce, Dostoieski, Tolstoi ou outro "autor difícil"
- Y = idade abaixo dos 16 anos

Então:
- Só há uma resposta possível: "Grandes merdas, não deve ter entendido nada".

belíndia tropical

Diz-se que o Brasil é um país tão cheio de contradições que é uma verdadeira "Belíndia": ilhotas ricas, com padrão de vida digno da Bélgica, perdidas em meio a bolsões de miséria indiana. Imagem batida essa, mas tudo bem.
O que nem sempre se diz é que a Belíndia não se faz sentir em termos puramente econômicos. Esse é o seu maior drama. Em muitos aspectos, somos uma Belíndia também em termos culturais, em práticas e representações coletivas, de mentalidades que variam entre o liberalismo e o "individualismo bem compreendido" (ô, o tal Tocqueville era bom mesmo) da Bélgica e o tradicionalismo e o holismo indianos.
Vejam bem: não estou tentando aqui dizer que um é melhor que o outro. Não. Meu ponto é que a persistência de nossas contradições sociais deve-se em muito à disparidade entre mentalidades, valores. As aspirações e os valores do Seu Zé de Pororoca do Norte estão longe das do Doutor Eric D'Ávila, do Morumbi. E nas últimas décadas essa diferenciação interna só fez crescer assustadoramente. Uma Semana de 1922 seria impensável hoje: qualquer tentativa de definição do "caráter nacional" recebe saraivadas de críticas impressionantes. O futebol parece ser um dos últimos traços culturais de abrangência verdadeiramente nacional. A novela das oito também.
Boa parte do "problema" do Brasil está aí. Porque há, de fato, uma pressão enorme rumo ao "progresso", ao liberalismo moderno, individualista, racional, enfim, calcado em um ethos muito próximo da "ética protestante" definida por Weber. Só que o Brasil jamais conheceu tal ética; Gilberto Freyre, em toda a sua obra, fez questão de salientar nosso "luxo de antagonismos" e os nossos "excessos": nunca fomos apolíneos, mas sim dionisíacos. O "homem cordial" de Sérgio Buarque de Holanda é esse, é o anti-puritano, seu oposto exato.
Por n motivos conhecidos por todos e estudados por alguns, no entanto, o Brasil não se manteve assim: ingressou, ou foi tragado, no inarredável fluxo da modernidade. Uma modernidade que jamais aportou por aqui com abrangência nacional. Os primeiros centros urbanos foram poucos e concentrados e desde sempre andaram num passo muito distinto dos "grotões". Dentro dos próprios centros urbanos as diferenças sempre foram enormes: há menos de dois séculos tínhamos doutores formados na Europa discutindo o humanismo e o avanço científico enquanto eram servidos por escravos, ou seja, sujeitos totalmente enredados em laços de dominação pré-modernos. Por estas plagas, o próprio conceito de igualdade foi introduzido de forma sui generis, justificando plenamente o chavão de que "uns são mais iguais que os outros", afinal, jamais foi universalizado, ou melhor, jamais houve planos efetivos de universalizar tal idéia. Roberto Schwarz chama isso de "idéias fora do lugar", o "torcicolo ideológico" brasileiro, que incorpora conceitos adaptando-os a uma realidade pouco coerente com eles.
Mais de um século se passou, a força modernizante continua agindo, mas ainda assim os traços tradicionais, holistas, sobrevivem, incorporados tanto pelas elites quanto pelos estratos sociais mais baixos. O "doutor" é isso: é a expressão verbal de uma hierarquia profundamente internalizada por segmentos enormes da população. E internalizada em graus diferenciados, é claro, e isso só complica o drama. Porque, por mais que nós pensemos que somos 100% "belgas", ainda há muito de Índia em nós: uma concepção holista que põe valores e instituições sociais acima do individualismo abstrato (ou seja, por exemplo, a consagração da família acima do "profissionalismo"; daí o nepotismo), que não considera todos os homens iguais ("você sabe com quem está falando?"), que põe a "justiça" - um senso vago de justiça com fundo emocional guiado por valores coletivos - acima da aplicação fria da lei etc etc. Em suma, mesmo o mais moderno de nós tem essa marca, essa dificuldade de trabalhar exclusivamente com uma concepção individualista e impessoal do mundo, quase mecânica. E nós mesmos nos orgulhamos disso: dizemos que o brasileiro é um povo "caloroso", "receptivo"; gostamos da "humanização" que nossas emoções e paixões nos dão.
Sem muito critério, no entanto, aprovamos estes aspectos e recusamos outros, de forma totalmente incoerente, o que só reforça nossa mentalidade "belindiana". Reclamamos dos políticos assistencialistas, dos severinos, do empreguismo, do clientelismo, do nepotismo, do escambau. Mas isso é reflexo de nossa sociedade. É no nordeste, por exemplo, onde a estrutura patriarcal tradicional foi menos abalada até aqui, onde a modernidade menos se insinuou (e nisso houve grande complacência das elites do sudeste, não adianta fingir o oposto), que mais grassa este tipo de político. É um choque de concepções de mundo, uma ruptura séria que ninguém olha para proteger o mito de que o Brasil é um "país tropical, abençoado por Deus", que não tem vulcões nem terremotos, ódios étnico-raciais nem movimentos separatistas. Mais um reflexo do nosso próprio holismo: vemos a homogeneidade onde ela já quase não existe. É difícil para nós admitir o conflito, o risco de cisão. Os políticos são canalhas porque são canalhas, não porque se aproveitam de características sociais. Falar isso seria "culpar" os nordestinos ou o que for. (E mesmo por "nordestinos" há uma generalização grotesca). Mas não se trata disso: o X da questão é o fato de que não há consenso entre o próprio povo brasileiro acerca dos nossos valores fundamentais. Ou melhor: até há, em diferentes níveis, mas esse consenso vai por água abaixo quando entramos na esfera da ação política, no Estado. Afinal, o Estado-nação tal como o conhecemos é uma construção moderna e se sustenta nas noções modernas de igualdade e liberdade. Noções que não são tranquilamente compatíveis com os valores que norteiam a maior parte de nossas práticas, em graus variantes, é claro. E o máximo de consenso que se obtém é aquele: a modernidade é ótima, a impessoalidade da lei é ótima, mas que isso valha para os outros; quando é comigo (ou com os meus entes queridos) sempre consigo justificar de alguma forma, sempre vejo atenuantes. "Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei".
Naturalmente, o que mais poderíamos esperar? Se a república foi declarada depois de um golpe de elite, como achar que a população como um todo poderia internalizar as leis? Não nos sentimos responsáveis por ela, estamos à margem. Assim nos sentimos. Tudo neste país sempre foi monolítico, implantado de cima para baixo, com uma vontade incontida de moldar a sociedade segundo diversos modelos. Daí a pletora de leis, códigos e o escambau. Daí as leis que pegam e as que não pegam. Porque acima da lei está a sociedade, a nossa sociedade, uma sociedade que não se vê espelhada na lei, uma sociedade que naturalmente não vai se deixar "dominar" por códigos e multas e que-tais que pretendem instaurar um padrão europeu em um meio que é quase anti-europeu. Não há discussão de valores, de projetos etc no nível mais baixo, da própria sociedade civil, não há nem nunca houve uma auto-reflexão verdadeiramente democrática, que incluísse o grosso da população. O fato de esta ter sido sempre composta por um amálgama de culturas muito distintas só dificultou ainda mais o procesos. São muitas lógicas diferentes operando no mesmo ambiente, e o chão comum entre elas, a pequena síntese que se produziu (mas que não diluiu as diferenças e antagonismos) quase nada tem a ver com os ideais republicanos modernos.
Tudo bem, isso tudo é fruto da própria "juventude" do Brasil. Há um século éramos ainda um país eminentemente agrário. Em poucas décadas tudo mudou e muitas destas transformações ainda não foram devidamente digeridas. É nítido que houve ganhos recentes, ou melhor, que houve uma "harmonização" maior, no sentido de que engrossaram as fileiras dos defensores de princípios modernos. A própria prisão do jogador argentino é prova disso; há não muito tempo um gesto tão abjeto quanto o dele teria passado em brancas nuvens. Beleza. Mas ainda há muito a ser feito e pensado. É só verificarmos o quanto o capitalismo no Brasil se assentou em relações produtivas não-capitalistas; todos os bóias-frias, os trabalhadores em regime de semi-escravidão ou de servidão, o diabo. Ainda hoje: os fulanos que jamais ganharam hora extra, o peso da lei se fazendo sentir muito mais forte para os elos fracos. O assistencialismo ainda sendo encarado como uma benesse dos políticos, simplesmente porque oportunistas descarados se aproveitam desse tipo de dominação.
Precisamos decidir: queremos um Brasil moderno? Estamos realmente dispostos a colocar ideais de impessoalidade, de liberdade e de igualdade acima de tudo? De certa forma, somos obrigados a isso, nem que seja pelo avanço inevitável do mercado, cuja lógica é racionalista, moderna. Pois então, é mister abraçar a causa de todo. Sem exceções; sem favores, jeitinhos ou o que for; sem a piedade cristã, a simpatia humana que dobram a lei em nome de uma situação particular, que premia os amigos, que vê no pistolão um "direito". Levar isso ao limite é impossível, é claro, e não é desejável. Mas se não tivermos como um objetivo utópico isso, então nada vai sair do lugar, ou ao menos não em um ritmo mais rápido. Para isso, é necessário abraçar tais valores de fato, inscrevendo-os na ossatura do próprio Estado, mas, mais do que isso, tornando-os como a bandeira principal da sociedade civil. Antes das leis, mudem-se os costumes. É o que se diz. Pois é hora de mudá-los. Qualquer noção de cidadania tem que passar por isso; tem que passar pela introjeção de regras aparentemente alienígenas para nós (além da racionalização das mesmas, é claro).
É difícil, claro, instaurar uma ética da responsabilidade quando mesmo os países de vanguarda da modernidade parecem estar cada vez mais fraturados, fragmentados; quando a noção de cidadania perde cada vez mais para a de indivíduo. Isso só põe lenha na nossa fogueira; ninguém disse que ia ser fácil apagar o incêndio. Agora, mudar de fato o quadro social sem que antes se mudem as consciências, aí é mais difícil ainda. Temos duas opções: a) abdicar da pretensão política, relaxar e observar o passo da sociedade, respeitando a diversidade de culturas, enxergando nos mais miseráveis uma 'cultura' própria; b) deixar de lado esse multiculturalismo de conveniência e admitirmos que só pela integração se escapa do abismo social em que nos encontramos, admitirmos que é imperativa a formação de um consenso em torno da modernização. A opção B me parece mais razoável, ainda que se possa objetar: "ah, mas quem disse que riqueza material é algo bom em si mesmo?". Não, não é. Sim, há um grau de autoritarismo na idéia de incorporar o grosso da população a um mundo que segue uma lógica moderna. Mas, a meu ver, a outra opção é ver esse mundo erodir certos laços tradicionais e dar origem ao conflito. A combinação entre desigualdade e individualismo, aliada à um culto da masculinidade, têm sua expressão mais nítida na explosão do tráfico de drogas e da violência urbana.

Sexta-feira, Abril 15, 2005

serviço de utilidade pública

Nunca usar as palavras "natureza" e "humana" juntas na mesma frase. Isso não existe. É conversa para boi dormir. No máximo, se existe algo que possa ser digno deste nome, bem, então este algo é tão absurdamente flexível e dependente de tantas variáveis que acaba não tendo significado algum. Então vamos parar com isso. O homem não tem instinto; a cultura reveste e subordina tudo. Quem quiser, que lamba os beiços com a idéia de que a "natureza do homem" consiste em uma infinita capacidade de diferenciação.
Bom, mas mesmo que você discorde de tudo que está escrito acima, tenha a gentileza de ao menos não usar tal expressão quando for comentar qualquer coisa a respeito de "Dogville". Obrigado.

Quinta-feira, Abril 14, 2005

FHC

Na sua coluna de hoje, o Merval Pereira comenta que FHC se diz decidido a não disputar nem a presidência nem o governo de São Paulo. Será? É cedo, naturalmente, mas eu acredito nessa possibilidade. FHC parece mais próximo de disputar a presidência do universo do que dessa republicazinha federativa do Brasil.
Sejamos francos. FHC é o primeiro presidente desde a redemocratização que tem o mínimo de condições políticas de tentar voltar ao cargo. O Sarney saiu queimado para o resto da vida (e a boquinha no Senado está boa demais), o Collor, idem. E o Itamar, vocês podem perguntar? Bem, não bastasse a desastrosa passagem pelo governo mineiro, temos que levar em conta que nosso queridíssimo FHC já se apropriou definitivamente do Plano Real. E sem Plano Real, o que o Itamar tem para alardear por aí? Pois é.
De todo modo, muitos acham por aí que o gosto de FHC pelos holofotes justificaria uma nova campanha para presidente. Eu duvido. Ele parece muito confortável no papel de eminência parda do PSDB, de guia espiritual dos tucanos. Seu currículo até aqui é irretocável. Sensibilidade política ele sempre teve: quem se lembra, hoje, que no fim de seu segundo mandato, em 2002, sua rejeição era tão grande que até mesmo o candidato de seu partido tentou se apresentar como um "quase" oposicionista? Ninguém lembra. O que ficou para a história foi o sucesso da primeira "transição democrática" digna deste nome neste país.
É por tudo isso que aposto minhas fichas que FHC está fora do páreo. Ele já inscreveu seu nome na história do país e dificilmente arriscaria tudo em uma eleição contra o Lula, favoritíssimo devido à perigosa aliança entre controle da máquina e carisma pessoal. Se FHC tiver metade da vaidade que atribuem a ele, bem, então não creio sequer que ele se candidate a mais nada nesta vida (senador, talvez, mas mesmo assim é difícil: será que vale a pena tentar bater o Suplicy? E se ele perde?). Definitivamente, ao menos, não vejo por que ele tomaria decisão tão radical quanto a de Serra, que pôs seu futuro político na reta ao se candidatar em São Paulo. Se Serra perdesse, já era. Com FHC a situação talvez não fosse tão drástica, mas seria uma derrota pessoal difícil de superar. E uma derrota para o PSDB também.
Por que então o nome de FHC tem aparecido tanto? Bem, pela total falta de opções tucanas, isso sim. Serra está comprometido em São Paulo, isso é ponto pacífico. Aécio enfraqueceu-se depois das eleições municipais, particularmente com a vitória de Fernando Pimentel no primeiro turno. Alckmin fortaleceu-se; seria teoricamente a bola da vez. Mas, sinceramente, ele é o tipo de político que pode dar certo em São Paulo, mas nunca no Brasil inteiro. Um Eduardo Suplicy piorado: cara de burocrata, cheiro de burocrata, voz de burocrata e gestos de burocrata. Vai ser trucidado pelo Lula. É claro, há o mito de que sua gestão é um sucesso. Mito tão sólido quanto o de que Cesar Maia é um "bom administrador". Não resiste a três minutos de ataques em horário nobre.
O que sobre, então, do PSDB? Tasso Jereissati? Um bom nome, sem dúvida. Pelo menos é um dos tucanos com maior coerência. Teria ele penetração nacional? Acho difícil e ele mesmo não parece estar se esforçando tanto para isso. Ele é jovem, tem tempo e uma cadeira no senado; não precisa arriscar-se.
No fundo, o Alckmin é conveniente para todo mundo: uma derrota não é o fim do mundo; ele não vai "perder a vez" dentro do partido, mas, por outro lado, tucanos d'outras plagas ganhariam peso político. Tudo isso, é claro, desde que um "fato novo" não destrua as chances de Lula. Sem isso, o mais provável é mais quatro anos de sapo barbudo. 2010 é que vai ser o bicho.

que viva ancelmo

Duas notas que mostram por que o Ancelmo Gois é o homem mais divertido do jornalismo carioca:
"Rosinha surpreendeu um grupo que recebeu esta semana com duas revelações: 1) Tira duas horas toda tarde para estudar com dois filhos em dificuldade na escola e 2) Está escrevendo um livro sobre o acidente que sofreu com Garotinho em 2002, quando um palanque desabou. Segundo a governadora, o marido levou uma pancada tão forte que teve uma regressão mental e, por alguns dias, agiu como se tivesse 15 anos. "
"Lula disse na África, ao defender suas viagens, que “política é olho no olho, como diz o povo brasileiro: tête-à-tête”. Na minha terra, tête-à-tête é expressão francesa."

relações de causa e efeito

Alguém usou as palavras "sinal amarelo" e "acendeu"?

Quarta-feira, Abril 13, 2005

injustiçados

"De olhos bem fechados" é um filme injustiçado. Uma Nicole Kidman compensa dez Tom Cruises. E o filme é fantástico, no sentido mais amplo do termo; é fantasmagórico, seco, sonho-e-realidade ao mesmo tempo. E, é claro, é sobre conspirações. ´
É sobretudo menos, digamos, freudiano do que "Breve Romance de Sonho", livro de Arthur Schnitzler que inspirou o filme. Que também é um livro injustiçado, nem que seja pelo fato de não ser regularmente citado entre os vinte, trinta ou cinqüenta melhores de "todos os tempos".
Filme e livro são bichos de espécies diferentes, que fique bem claro isso. Em comum, o fato de o bizarro ser terrivelmente mundano e a sensação de um vazio elegante, das explicações que não se fecham em si mesmas. A favor do livro sobre o filme conta o fato de que o clima na Viena do fin de siècle (pernosticismo máximo; mui provavelmente ainda escrevi errado) se prestar melhor à dualidade tensa entre o bizarro e o trivial. De mais de uma maneira o livro é em si mesmo a representação da ruptura do mundo tradicional organizado; seus personagens estão à deriva, tentando se apoiar no cotidiano ao mesmo tempo em que nutrem uma fascinação extraordinária pelo desconhecido. A revelação de Albertine (Alice, ou melhor, Nicole Kidman) de que já traiu Fridolin (Bill/Tom Cruise) "em pensamento" é uma besteira para nós, talvez, mas equivale à erosão completa de tudo capaz de organizar a vida do protagonista. É a revelação que faz nascer o indivíduo; um indivíduo desgarrado no mundo, zanzando por ruas vienenses em busca de vingança contra a mulher e também em busca do próprio mundo.
E o final? Bem, nesse quesito o livro é indiscutivelmente melhor que o filme, nem que seja pelo grau de incerteza maior na "reconciliação". Porque os eventos afetam a natureza íntima de cada um ali; sim, o casamento pode ser reatado, mas a ingenuidade, a naturalização da vida que havia antes não poderá mais existir. O casal virou, com efeito, mais uma associação entre indivíduos do que uma realidade concreta em si mesma. Soa familiar.

até que enfim uma boa notícia para o andar de baixo

"Venda fracionada de remédios deve começar em 45 dias". Esse lobby o governo federal (aparentemente) conseguiu vencer. Como diria o bom Elio Gaspari, a patuléia agradece.

é isso aí

"Pity's very underrated. I like pity. It's good." (George Costanza)

notícia boa do dia

"Vírus mortal distribuído por engano". Que delícia, hein. Agora, vem cá: todo o propósito da civilização não é evitar que essas coisas aconteçam?

está com tudo e não está prosa

Severino Cavalcanti é a melhor coisa que aconteceu no cenário político brasileiro desde...bem, muito tempo. Mais do que qualquer outro dos burocrata que tenha presidido a Câmara nos últimos tempos, Severino é um homem transparente e coerente. Sua prática e seu discurso harmonizam-se com perfeição. E é por isso que o catastrofismo chegou à mídia nacional nas últimas semanas. Por trás de todas as afirmações de que Severino é uma "ameaça ao equilíbrio entre os Poderes e às nossas instituições" está o fato de que o Brasil é, por excelência, o país da retórica (Gilberto Freyre já identificava essa tendência na educação jesuíta dada aos filhos da elite há mais de dois séculos).
Afinal, desde a ascensão de Severino ao trono, tem-se a impressão de que o Brasil, um país campeão do impessoalismo cívico, virou uma república de bananas. Tem-se a impressão de que o "baixo clero", uma massa 'detestável' de deputados antes firmemente controlada pelo Executivo, libertou-se dos grilhões da moralidade. E que isso é culpa de Lula. Mas não foram eles eleitos democraticamente? E mais ainda: até aqui não foram eles sempre os fiadores do Executivo na Câmara? Ora, minha gente, o "baixo clero" sempre vendeu caro seu apoio e mesmo assim o Executivo nunca se furtou de aceitá-lo. Aumentos, nepotismo, fisiologismo, todos esses demônios recém-descobertos sempre existiram na prática. Por trás de todo discurso de modernidade, de maturidade democrática, sempre existiu o varejão dos deputados, as medidas clientelistas etc etc. Luis Eduardo Magalhães, Michel Temer, Aécio Neves, João Paulo Cunha: todos os burocratas sempre precisaram do apoio dessa massa até então anônima de deputados para serem eleitos. O Executivo sempre contou com eles para garantir a docilidade do Legislativo.
Trata-se, obviamente, de um fenômeno muito mais amplo que Severino Cavalcanti, homem que, por sinal, já está no quarto mandato e já integrou a Mesa Diretora da Câmara em legislaturas passadas. A existência do "baixo clero" tem uma dimensão sociológica; é reflexo do fato de que o projeto modernizador no Brasil sempre só avançou ancorado em práticas profundamente tradicionais e arcaicas. Getúlio não estendeu aos trabalhadores rurais a legislação social que implantou para os trabalhadores urbanos e foi exatamente por isso que ele teve condições políticas de implantar tal legislação. Todo o avanço do capitalismo neste país sempre dependeu em última instância de relações não-capitalistas (pré-capitalistas?) de trabalho. O nosso tão propalado agro-business é um belo exemplo: quantos dos bilhões de dólares que nós exportamos anualmente não são produzidos à base do trabalho informal, dos bóias-frias, da falta de garantias trabalhistas, de remunerações abaixo do salário mínimo etc?
Mas voltemos a Severino. No cerne de sua eleição esteve o dilema petista entre o idealismo (e a integridade) e o realpolitik. Não que um exclua necessariamente o outro; o que se viu mesmo foi inépcia, incapacidade de saber quando fazer concessões e quando jogar duro. Logo, abriu-se espaço para um oportunista como Virgílio Guimarães, que, por sinal, fez campanha prometendo os mesmos aumentos advogados por Severino. Tudo bem. Sejamos sinceros: mesmo o Greenhalgh, caso eleito, teria de se dobrar às pressões do "baixo clero". Uma mão lava a outra.
Só que é justamente neste ponto que tudo fica mais divertido. Porque Severino assumiu botando banca e pagando para ver, mas ele é, em última instância, um político e, portanto, depende da opinião pública. O mundo caiu em cima dele contra os aumentos aos deputados e outras medidas. Algumas foram furtivamente aprovadas, outras - talvez as mais importantes, do ponto de vista dele - não. Será que em condições normais teria acontecido o mesmo? Será que se Greenhalgh tivesse autorizado o aumento a chiadeira ia ser tão forte e, mais ainda, a classe política ia se sensibilizar tanto? Creio que não porque, para variar, certamente um discurso nobre e virtuoso seria tecido para justificar tal medida. A oposição iria cair de pau, o governo revidaria e a massa silenciosa trataria de se beneficiar. Com Severino, é diferente; o efeito das reclamações deu-se na própria carne dos parlamentares, ou pelo menos na carne do seu grupo, que, por bem ou por mal, "lidera" o "baixo clero". Em suma, colocou-se tudo em pratos limpos, com o mínimo de dissimulação. Em tempos passados, quando cardeais tucanos, pefelistas e petistas estavam no comando, as benesses costumavam ser aprovadas sem muito grilo. Para o Executivo, a relação custo-benefício entre o desgaste público e a simpatia dos parlamentares era compensador.
O efeito mais positivo de Severino Cavalcanti, contudo, não é este. É outro. Pela primeira vez em muito tempo a Constituição está se fazendo cumprir de forma razoável; pela primeira há um mínimo de independência entre o Legislativo e o Executivo. A reação de Severino contra o excesso de MPs é sinal disso e, embora ele não tenha autoridade para rejeitá-las, sua ação recolocou o tema em pauta e já se fala até em mudar a legislação. É um avanço. Afinal, elegemos deputados e senadores para quê? Para que um presidente governe por decreto? E a coisa vai mais além: vejam as acusações de nepotismo. Raposa que é, Severino defende o nepotismo com um adendo: seus filhos possuem grau universitário, pós-graduação etc, então por que não podem ocupar cargos públicos? Ora, isso é uma pergunta central em um país como o Brasil. Por essas plagas o nepotismo é muito combatido no papel mas, na prática, o jeitinho impera, os laços pessoais e afetivos sobrepujam a impessoalidade e a técnica. E se um apaniguado une afeto e técnica? Fazer o quê? Esta é a contribuição de Severino Cavalcanti para o debate, contribuição muito útil porque obriga a uma tomada de posição que não pode ser mais tão rígida e contraditória quanto a crítica tradicional, que aponta dedos para os outros mas ignora as próprias ações. Obriga a uma reflexão que ninguém faz e que nossa imprensa se esforça para encobrir (vejam esta reportagem)
E o velho Severino vai mais além: "tudo bem", diz ele, "vamos proibir o nepotismo, eu topo, mas com uma condição, a de que a proibição valha para todo mundo". O homem é um gênio. De repente todo o universalismo que está na base do Estado moderno surge com força justamente de onde menos se espera. E agora, Lula? Vai abraçar a causa? As sras Dirceu e Palocci vão para a rua? O esquema de contratação triangular - um político contrata um parente do outro e vice-versa - vai acabar mesmo? Porque Severino está certo. Tudo no Brasil é feito pela metade só para acabar com o que "pega mal". Se é para punir a prática, que a punição valha para os três Poderes e de forma impessoal. É parente, não pode. Ou então vamos admitir que às vezes é bom trabalhar com parentes e parar com a hipocrisia. Senão ficamos nessa situação esdrúxula: todos sabem que a prática é comum, mas ela só se torna um problema quando vem a público. E quando vem a público (e esse vir a público é relativo, depende da vontade de um jornal publicar o fato com tom de denúncia, não de a nomeação tornar-se conhecida) , todos os casos são tratados da mesma forma. E aí não dá para não ficar com cabo de guarda-chuva na boca: o caso do antropólogo Luis Eduardo Soares é exemplar. Sua ex-mulher, Bárbara Mussumeci, tem amplo reconhecimento acadêmico. No entanto, bastou a imprensa alardear que o Soares contratou-a que ele foi degolado e a imprensa se satisfez, sem sequer parar para pensar a que interesses estava servindo quando pediu a cabeça do então coordenador do programa nacional de segurança pública.

Terça-feira, Abril 12, 2005

eleições 2006

Dia desses o Rafael Galvão decidiu ser provocativo: "Mais uma pergunta simples e básica: se as eleições fossem hoje, em quem você votaria para presidente, considerando as opções existentes?", escreveu ele.
O post foi muito oportuno e deu um nó em minha cabeça. Ao mesmo tempo em que estamos inevitavelmente em um momento-chave de nossa história recente (tudo bem, pode-se perguntar quais momentos não foram importantes, mas, de qualquer forma, da Alca à reforma política, passando pelo aumento sistemático da violência urbana, não vão ser poucas as batatas quentes na mão do próximo presidente), o quadro político-partidário brasileiro está mais confuso do que nunca. Os candidatos já estão razoavelmente definidos (a não ser que aconteçam surpresas de última hora), o problema mesmo parece ser a escolha dos discursos de cada um.
Ou será que o PSDB acha que vai conseguir se eleger com uma bandeira tão tipicamente de classe média quanto o aumento da carga tributária? E pior ainda: vai tentar fazer isso usando quem? O Alckmin? O Aécio? Os dois não têm a menor chance no inferno de ganhar do Lula. E o PFL? Vai continuar fingindo que vai de Cesar Maia ou vai correr logo para os braços dos tucanos? Garotinho pode sair pelo PMDB - difícil, dado a fragmentação do partido; é muito cacique para pouco índio - ou por um partido menor. De resto, sobra o que? Heloisa Helena? Roberto Freire? Bom, ao menos a senadora ainda tem um discurso próprio. Mas e o Freire? É um tremendo em cima do muro; acende uma vela para a esquerda (intervenção estatal contra a desigualdade) e outra para a direita (alinhamento com o PSDB em diversas questões, inclusive na última eleição paulistana). Fora isso o que sobra? PL, PCdoB, PP etc etc: todos foram devidamente cooptados pelo governo petista. Melhor dizendo: se fizeram cooptar.
Ou seja: a coisa tá preta porque a política se afastou mais do que nunca da sociedade, rendendo-se à economia. Mui provavelmente a próxima eleição vai marcar a consagração do modelo político-"gerente" ou político-"síndico". Abdiquemos de eleições: vamos à FGV escolher o aluno de administração com o melhor CR e pronto.
Mas não adianta choramingar, até porque podia ser pior. E é pior, ao menos no Rio de Janeiro: as perspectivas para a eleição estadual são tétricas. Muito se fala sobre o esvaziamento político e econômico do estado, mas não há uma única proposta concreta exceto o movimento pela desfusão, o que só comprova como nosso bonde está mal parado. Aqui, o vácuo político talvez seja ainda mais intenso do que no plano federal: nenhum dos Garotinhos pode se candidatar, eles não têm nenhum sucessor óbvio. Mas tudo bem: os outros partidos também não têm. Se Garotinho optar por Sérgio Cabral Filho, aí a coisa muda, talvez abocanhe o cargo já no primeiro turno. Quem sabe? Só não me venham falar em Cesar Maia. O imbróglio todo da saúde vai ser usado e abusado caso ele saia candidato ao governo do estado e aí, meu amigo, fica difícil, até porque uma aliança com o PT parece mais remota do que nunca. A não ser que ele consiga criar um "fato novo" até lá, mas mesmo assim é difícil. As imagens dos velhinhos doentes mofando nas filas é terrível demais para qualquer candidato. E o Cesar não está com essa bola toda não, nunca esteve: sua reeleição foi uma feliz combinação de uso da máquina + medo que a classe média tem de Crivella + rejeição a Garotinho + racha na esquerda e no PT carioca + muito fisiologismo etc etc.

Lula

"O Lula sabe o que o cara do rap está cantando. Ele conhece aquela voz. Outros podiam não conhecer, mas o Lula sabe exatamente o que é aquilo, não há de esquecer."
"Parece que há uma certa vergonha de ter um presidente como o Lula, um operário, um sujeito com um dedo a menos e que fala errado. Uma vergonha de ver o Lula representando opaís lá fora. Percebo isso em gente próxima."
(trechos da entrevista de Chico Buarque à Folha de S. Paulo; copiado do smart shade of blue)
Sinceramente? Achei fenomenal a eleição do Lula. Um marco etc etc. Agora, convenhamos: é difícil aturar essa retórica que usa o passado do Lula para legitimar tudo o que ele faz. Hoje, o maior capital político do presidente é o seu passado; é essa a única coisa que o diferencia dos políticos 'comuns'. Ele é 'do bem'. Tem boas intenções. Por quê? Pelo seu passado. É uma lógica completamente circular.
Isso muito me incomoda; trata-se de uma artimanha simples para justificar tudo. Se o Lula fez assim e assado, então é porque não tinha outra escolha. Francamente. E o pior de tudo é constatar que isso também parte muito dele próprio: basta ver "Entreatos" (ainda vou falar muito deste filme) para ver como o então candidato legitima tudo com base na sua experiência pessoal. Sua história é mesmo fantástica, mas auto-referência- e auto-reverência - tem limite.
De certa forma, acho que tudo isso é residual. Durante muito tempo o PT se auto-proclamou o guardião da moral e dos bons costumes políticos em meio a uma combalida e desacreditada classe política. Agora o partido está mais "mundano"; o que resta são apenas resquícios destas noções antigas e o Lula é a personificação deles. Depois de um eventual segundo mandato (ele ganha fácil, não?), o presidente vai, inevitavelmente, ter que sair de cena, ou, ao menos, ceder lugar a uma 'nova geração' de perfil muito mais burocrático do que operário; um pessoal que nunca teve nem um décimo da credibilidade do Lula aos olhos da opinião pública. E aí o PT estará completamente tucanizado. Por enquanto, fica apenas a contradição: as alianças de FHC foram espúrias e seu governo, direitista; as do Lula são "pragmáticas" e seu governo, "progressista".
Quem diria que o PT iria se tornar o símbolo maior da distância que separa prática e discurso neste país, hein? Ao mesmo tempo, não era previsível?

sobre o post anterior

Cliquei no botãozinho de visualizar o blog em uma nova janela, olhei para o post anterior ("Herói/O Clã das Adagas Voadoras") e uma pergunta mui pertinaz me veio à cabeça: quem no inferno terá saco de ler aquilo tudo?
Está na hora d'eu me auto-aplicar uns bons catiripapos. Só para ficar esperto e deixar de ser prolixo.

Herói/O Clã das Adagas Voadoras

[contém spoilers]
Os dois filmes me fizeram feliz. Quão feliz? Bastante feliz. Mas não da mesma forma e nem com a mesma intensidade. Aliás, pode-se dizer até que, quanto mais eu penso, mais eu gosto de "Herói" e menos eu gosto de "Adagas". Por quê?
Bem, é simples. De início, os dois são esteticamente magníficos: "quadros em movimentos" é um chavão estúpido, porém apropriado, caso o querido leitor pense em pinturas renascentistas ao ler a palavra "quadros". Os dois filmes são mágicos visualmente; criam mundos totalmente impossíveis mas sumamente desejados. Deleitam os olhos porque dão concretude àquilo que nossa imaginação - tão desencantada quanto o nosso mundo ocidental - já não é mais capaz de conceber sem se tornar terrivelmente auto-consciente do próprio delírio. Só que o cinema é a arte mais persuasiva que existe; se estamos vendo algo é porque aquilo existe. Ou existiu, em algum momento, diante da câmera (esse é o segredo dos bons efeitos especiais, por sinal: eles não acabam inteiramente com essa sensação de que aquilo realmente se passou no mundo real. É parcialmente por isso que a trilogia original de Star Wars é mágica e os episódios novos, tão artificiais quanto , são apenas entediantes). Pois bem: mesmo com todos os efeitos especiais tanto "Herói" quanto "Adagas" transmitem essa sensação de serem verdadeiros.
Mas não se pode ficar só na experiência estética. Não. Vamos adiante, então. Muitos falaram que "Herói" é nazista, comunista, totalitário, demoníaco etc etc. Tudo porque, no fim, o indivíduo - "Sem nome" - abdica de sua missão pessoal - matar o imperador - em nome do Bem Comum. (E morre, é claro). Pior ainda: o Bem Comum não é um Bem em si mesmo, um Bem Supremo, pelo contrário, ele implica a aceitação de que é melhor ser governador por um tirano impiedoso do que ser dominado por inimigos estrangeiros. É um Bem Comum que se resume à idéia de que há naquelas comunidades uma semelhança, uma "alma coletiva" que é preciso unir e proteger. Ora, que mané totalitarismo o quê. Vejam só: o filme nos transporta para a China antiga. Temos nós o direito de exigir que ele seja, então, um filme politicamente correto em relação à nossa ideologia de valorização do indivíduos? Aquele não é o mundo da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Não, é um outro mundo. Se o personagem principal não se submetesse à idéia do "todo" ele não seria um habitante da China antiga, seria um homem moderno que viajou no tempo. É essa a ousadia do filme, que põe a coerência acima das concessões às platéias ocidentais. Estamos, realmente, na China antiga.
E o que é a China antiga? Certamente não é um lugar em que seres racionais instrumentalizaram o mundo, desencantaram-no, afastaram desta realidade todo o sobrenatural. Não, não é. Max Weber mesmo descreveu a religião chinesa antiga como um "jardim encantado". Pois bem. Vejamos então: aos olhos dos chineses - desses chineses antigos - todas as peripécias incríveis que os guerreiros fazem em combate, tudo isso não é perfeitamente crível? Certamente não são manobras vulgares, pelo contrário; apenas aqueles dotados de conhecimento, de habilidade, de "magia". Esses sim, poderiam fazer aquilo. (E aqui nos aproximamos decisivamente da teoria geral da magia elaborada por Marcel Mauss. Quem não leu, vale ler, nem que seja para ver o quão real pode ser a crença na mesma) .
Sim, vocês podem retorquir, poderia existir a "crença", mas jamais homens como nós poderiam realmente levar a cabo manobras tão extremas. Bom, mas aí é que está a beleza do filme: a história não se desenvolve totalmente através de relatos? Primeiro o Sem Nome conta a sua versão para o imperador, que, por sua vez, dá uma nova interpretação aos fatos, sob um outro ponto de vista, e isso, finalmente, faz com que o Sem Nome confesse, mude seu discurso. Ou seja: durante a maior parte do tempo estamos simplesmente no plano do discurso, das versões. Algo aconteceu e aí os sujeitos tentam articular os fatos, dar sentido a eles. Mais ainda, o próprio filme é um discurso: os letreiros no início afirmam que o imperador existiu e coisetal e o filme se anuncia enquanto um relato daquela época. Ora, os discursos refletem as consciências, as ideologias dominantes, as idéias sociais: nada mais natural que os discursos - e, portanto, o filme - reflitam esta realidade que é fantástica para nós mas que era sumamente real para os chineses daquela época.
No fim das contas, em "Herói", tudo se harmoniza: o mundo é coerente, ainda que mágico. Tanto pela exuberância visual quanto pelas habilidades extraordinárias dos personagens e por suas mentalidades e comportamentos. O resultado é um todo coeso. Mítico? Sem dúvida: trata-se, afinal, de uma espécie de mito de origem da China atual, de "como o país foi unificado e se tornou grandioso". E é assim que o "Herói" deve ser apreciado. Não devemos tentar adaptá-lo à nossa mentalidade/realidade (é isso que os épicos hollywoodianos fazem, submetem personagens históricos a lógicas atuais) e sim vislumbrar nele a possibilidade de um mundo riquíssimo e desconhecido para nós. Um mundo, mais ainda, muito bem construído, de forma quase, digamos, antropológica.
E "Adagas"? Bem, neste acontece, de uma forma ou de outra, o oposto de "Herói". A idéia de que se trata de um discurso - ou do conflito entre vários discursos - formulados pelos habitantes daquele mundo não é tão enfatizada quanto no outro. E a coerência, a beleza interna dos elementos que se complementam, não dá as caras aqui. Porque, vejamos: "Adagas" é, quanto à valorização do indivíduo, o extremo oposto de "Herói". Naquele, o "bem" da coletividade aparecia como um imperativo maior do que a missão individual do protagonista (vingar-se do imperador). Aqui, dá-se o contrário: forma-se um triângulo amoroso entre a protagonista (rebelde), um agente das forças rebeldes e um aliado do imperador. E a protagonista, no fim das contas, põe seu amor acima da sua causa, acima da sua fidelidade ao clã das Adagas Voadoras, e decide 'fugir' com o homem que era fiel ao imperador, que por sua vez também deserta sua causa. Naturalmente, no filme, todo uma tragédia se segue a isso, mas, de qualquer forma, é essa decisão que condiciona tudo. Bom, pelo menos para os meus olhos leigos, tal decisão não faz o menor sentido. A não ser que consideremos que aquela mulher da China antiga poderia ser capaz de inventar o individualismo moderno. E é claro que não podia. Não podia porque o ambiente, a sociedade em que ela vivia não lhe apresentava isso sequer como uma possibilidade. Sua obrigação para com o clã não era meramente profissional ou o que for (isso é um conceito moderno): ela estava comprometida por inteiro, toda uma identidade foi construída em cima daquilo.
"Adagas" trata-se, assim, de uma história moderna transplantada para um cenário não-moderno (anti-moderno até). Como se vê, não são poucas as semelhanças com "Romeu e Julieta". Mas a China antiga não tinha absolutamente nada a ver com a Inglaterra de Shakespeare, onde o embrião do individualismo moderno já estava sendo gestado ("Romeu e Julieta" é isso, é a submissão - até então inédita - do holismo, ou seja, dos laços familiares e sociais, ao individualismo). Mas não existiu um Shakespeare chinês, e tampouco um Locke ou um Hobbes de olhos puxados. A China antiga jamais foi uma monarquia constitucional. Em suma: tudo que possibilitou a existência de uma peça como "Romeu e Julieta", todos os sentimentos sociais que foram progressivamente se alterando com o tempo e implicando numa valorização cada vez maior do indivíduo enquanto realidade decisiva; tudo que fez da Inglaterra a Inglaterra (e do mundo ocidental o mundo ocidental) escapou completamente à história chinesa. Eles seguiram outro caminho. A antropologia nos ensina que não foi um caminho pior nem melhor, e creio que somos todos suficientemente adultos para admitir isso.
Se assim o é, então para que ambientar "Adagas" na China antiga? Que sentido faz? Pouco ou nenhum, penso eu. É uma concessão ao ocidente. Só que essa concessa destrói toda a possível coerência do filme. Forma e conteúdo; enredo e cenário; surgem disjunções entre estes elementos básicos da obra de arte. Ela não constitui mais um todo, mas um arremedo, um Frankenstein. É uma China antiga e mágica mas com personagens essencialmente modernos. Exatamente à maneira de todos os grandes arrasaépicos hollywoodianos, como "Gladiador", que mostram mundos absolutamente estéreis, mortos, porque não têm lógica interna nenhuma, não fazem sentido, são impossíveis. Separa-se o homem e o mundo, mas só nós modernos fizemos isso. O indivíduo se vale por si só. Isso é impossível. O sucesso do indivíduo, nesses casos, não pode ser jamais particular: ele é produto dos deuses, do destino, de realidades últimas que jamais podem ser inteiramente englobadas por ele. Porque, no mundo tradicional, ser e dever ser são exatamente a mesma coisa. O mundo é de tal forma porque deve ser assim. A sociedade é de tal forma porque ela deve ser assim; sua organização é como que apreendida da natureza das coisas e se legitima dessa maneira.
Weber passou sua vida tentando explicar como tal quadro pôde mudar; sua análise remonta ao judaísmo antigo. Louis Dumont seguiu caminho similar e deixou uma obra monumental em que tenta compreender a aparição do indivíduo enquanto valor moral num mundo guiado por uma concepção holista. São esforços hercúleos. Segundo Hollywood (e "Adagas"), os dois erraram. Ora, faça-me o favor.

Segunda-feira, Abril 11, 2005

"Gastos estratosféricos"

O jornalismo brasileiro é engraçado. "Gastos estratosféricos". Essa é a manchete da capa do caderno de Economia do Globo de hoje. Também foi a principal chamada da primeira página, embora com título diferente: "Governo gastou em 10 anos 6,5 vezes mais do que investiu", um título um tanto absurdo porque adota a noção não-intuitiva de que investimento não é 'gasto' (é sim, ao menos em parte, e a prova disso é que a reportagem faz a ressalva de que parte dos investimentos também foi contabilizada no cálculo dos gastos). Mas esse não é nem o problema da matéria. Vamos por partes.
O que diz o texto? Em suma, que o Estado brasileiro é grande demais, que o governo é perdulário, que é preciso cortar custos para que se possa investir. Totalmente compatível com a ideologia padrão dos grandes veículos de imprensa do país. Beleza. O fato de que os jornalistas insistem em listar o "cafezinho" como um dos itens incluídos na rubricas "custeio da máquina", que representou gastos de R$ 2,78 trilhões entre 1995 e 2004, demonstra isso com clareza. Mas é ridículo, é claro. Isso não é jornalismo. "Viagens, consultoria e cafezinho". É a isso que eles reduzem o custeio da máquina no infográfico que acompanhou a matéria. Soa bem, mas não diz nada sobre a verdade; é a transformação da notícia em showzinho para o público. "Cortemos o cafezinho", grita a multidão raivosa, depois de ler a reportagem. O cafezinho é cortado. Economiza-se mil reais. E daí?
E daí, nada. Também não é disso que eu quero falar. O meu ponto básico é, na verdade, um detalhe que certamente só saiu publicado por engano. Porque, sinceramente, mau jornalismo pode ser resumido a isto: o sujeito inclui na reportagem informações que desmentem parte do que ele mesmo fala. E fizeram isso: critica-se o tempo todo o 'gigantismo' do Estado, o excesso de despesas com a máquina e os servidores, blablabla. Aí lá no meio do infográfico bonitão que ocupa um bom pedaço da página estão os seguintes dados:
"Despesas com pessoal" (ou seja, despesas do Governo Federal com pessoal)
1995 - R$ 114,52 bilhões
1996 - R$ 107,47 bilhões
1997 - R$ 107,13 bilhões
1998 - R$ 107,69 bilhões
1999 - R$ 113,74 bilhões
2000 - R$ 107,13 bilhões
2001 - R$ 109,92 bilhões
2002 - R$ 114,32 bilhões
2003 - R$ 94,26 bilhões
2004 - R$ 99,81 bilhões
Total: R$ 1,07 trilhão gastos com "funcionalismo e encargos sociais".
Uma dinheirama só, não? Agora, vejam só, que curioso: os gastos só caíram abaixo da casa dos R$ 100 bilhões anuais a partir de 2003, ou seja, quando Lula tomou posse. Entre 1995 e 2002, período em que o príncipe FHC governou o país, as "despesas com pessoal" foram, em média, R$ 110 bilhões/ano. Nos dois anos de Lula, a média foi de R$ 97 bilhões/ano. Ué, mas o Lula não era um perdulário?
Por que raios isso não é comentado sequer uma vez no texto principal? Os jornalistas até reproduzem uma pergunta ácida do deputado pefelista Rodrigo Maia: "Será que o país precisa de 36 ministérios?". Ora, caríssimos, será que é preciso lembrar que o PFL foi um dos pilares básicos de sustentação do governo FHC? Não há aí uma contradição bizarra demais? O raciocínio é simples: o governo FHC gastou mais com pessoal do que o governo Lula. O PFL foi um aliado do peito de FHC durante a maior parte de seu governo (no máximo podemos dizer que, no fim do segundo mandato, houve um afastamento). E agora um pefelista critica o 'empreguismo' de Lula. Não há algo aí que não se encaixa? Pois é, foi o que eu pensei.
E olha que nem lulista eu sou, hein.

João Paulo II pode ser canonizado ainda este ano

"Um grande número de cardeais já assinou uma petição pedindo a abertura de um processo rápido de canonização de João Paulo II, relata a edição desta segunda-feira do jornal italiano "Corriere della Sera". Em entrevista ao diário, o secretário da Congregação da Causa dos Santos, o arcebispo Edward Nowak, disse que é "plausível" a canonização do Papa ainda neste ano." (do Globo Online)
Ai meu Jesusinho. O trecho acima só mostra o quanto é tênue a linha que separa o "saber usar as circunstâncias a seu favor" do "excesso de empolgação por causa de um fortalecimento temporário". Se isso sair do papel, então a Igreja sai da primeira para a segunda opção. Porque, até aqui, os velhinhos souberam muito bem aproveitar a comoção em torno da morte do Papa para reforçar nos fiéis seus valores fundamentais. Nisso, agiram muito bem, e eu inclusive já escrevi a respeito: é a melhor forma de evitar qualquer fragmentação ou desorientação causada pela perda de sua figura máxima. A morte de João Paulo II, longe de atomizar ainda mais os católicos, serviu para reuni-los novamente, celebrando a própria religião (e garantindo a perpetuação da mesma).
Muito bem. Mas tentar levar isso mais longe ainda, iniciando tão subitamente o processo de canonização do Papa (e para isso é preciso mudar uma batelada de regras), aí é pisar na bola. Porque desmerece e vulgariza a santificação. Porque é uma decisão feita no calor do momento para tentar prorrogar a comunhão provocada pela morte de João Paulo II. E a santificação não pode jamais ser somente isso; ela só pode premiar os verdadeiros ícones da fé cristã (na teoria, óbvio), e esses ícones são gestados ao longo de um certo tempo e concentram em si mesmos sentimentos que não podem ser passageiros, efêmeros, causados por um trauma específico. Eles têm de ser referências razoavelmente sólidas, fixas; têm de ser atemporais. Porque o santo é um indivíduo especial na fé, isso é óbvio. Não é para qualquer um. Imagina se, daqui a cem anos, alguém olha para trás e pensa: "É, né, João Paulo II nem era essa brastemp toda. Foi um homem muito bom e importante, sim, mas atropelaram todas as regras para santificá-lo e sequer conseguiram provar que ele fez milagres".

Mythbusters

Esse programa representa tudo que há de mais errado no mundo. A premissa é simples: os camaradas saem pelo mundo desmentindo lendas (urbanas ou não). Num dia desses aí foram até a África investigar casos 'reais' de zumbis, pessoas que efetivamente teriam ressuscitado. Descobriram (obviamente) que ninguém morria e voltava: o que acontecia é que os fulanos eram atingidos por dardos envenenados que deixam a pessoa em estado cataléptico. Eram dados como mortos e enterrados mas, depois de um tempo acordavam. Só que a escorrela causava danos ao cérebro. O resultado é que os 'mortos-vivos' se levantam e andavam por aí a esmo como os zumbis tradicionais.
Estão vendo? Como algo assim pode ser bom? Qual a graça? O que é mais interessante: zumbis ou sujeitos ordinários com debilidades mentais? Pois é. Estão levando isso de desencantamento (científico) do mundo longe demais para o meu gosto.

Rainier III e (ainda) o Papa

Coitado do Príncipe Rainier. Calhou de morrer na mesma semana do papa; quase não lhe deram bola. Do que li a respeito, fico feliz de linkar um bom texto de um dos melhores jornalistas brasileiros: Mário Sérgio Conti, autor do delicioso "Notícias do Planalto".
Para ainda ficar no nomínimo, também vale dar uma conferida no texto do Pedro Dória sobre as chances de Dom Cláudio Hummes ser escolhido o próximo papa. Tem mais consistência do que tudo que saiu nos jornais sobre a sucessão papal.

Dom Cláudio Hummes não seria um papa que pudesse fazer frente particular ao
Islã, mas tem vasta experiência com o diálogo inter-religioso. É conservador e
poderia atrair a simpatia do Partido da Fronteira. Tem experiência com o
sindicalismo, como tinha Karol Wojtila, e tem experiência na lida com os mais
pobres, traço comum à Igreja latino-americana. Por ser brasileiro, poderia
conter a perda de fiéis para as igrejas evangélicas no continente. O presidente
Lula é um bom cabo eleitoral. Embora não seja esta a percepção interna, ele, e
portanto o Brasil, é visto como líder da causa da fome, da pobreza, de uma
globalização justa. E o nome de dom Cláudio é um dos três ou quatro que aparecem
recorrentemente na imprensa italiana.

Domingo, Abril 10, 2005

os 100 dias

Rejeição de José Serra chega a 37%, diz pesquisa
Algum amigo paulista tem algo a dizer?

deu no jornal

Não há nada pior nos jornais tupiniquins do que as editorias internacionais. Não há mesmo. Tudo bem, isso é reflexo mais das condições precárias de trabalho - poucos correspondentes, verba curta, espaço exíguo nos jornais - do que da qualidade dos jornalistas. Mas o fato é que, espremido em uma ou duas páginas diárias, o noticiário internacional é ruim e distorcido. E bota distorcido nisso, graças à seleção de notícias, prá-lá-de-infeliz, sempre servindo muito mais para confirmar idéias pré-estabelecidas - e assim passar uma noção de mundo "organizado" - do que efetivamente atrelada aos fatos. E isso só muda quando ocorre uma tragédia grande ou alguém de renome morre. Querem exemplo melhor do que a eleição americana do ano passado? Qualquer leitor brasileiro que acreditasse nos nossos jornais certamente se sentiria seguro ao apostar todas suas fichas numa vitória de John Kerry. Porque era só disso que nossos jornais falavam: do êxito do filme de Michael Moore, das hordas de celebridades que se bandearam para o lado do democrata, da repercussão estrondosa das denúncias contra o Bush etc etc. "Deu no New York Times, ué". Bush não tinha a menor chance. E ganhou. E agora, José? Nisso o insano do Olavo de Carvalho tem razão. Só que, convenhamos, se trata menos dos efeitos de uma ideologia "esquerdista" hegemônica do que do simples apego às explicações mais fáceis. Senão, vejamos:
a) Venezuela - "Os venezuelanos odeiam Hugo Chávez, que é um facínora travestido de presidente". Toda a cobertura do plebiscito apontou inevitavelmente para uma derrota humilhante de Chávez. Não aconteceu. As greves em massa receberam espaço absurdo; a oposição acusou Chávez de tudo. Dizem que ele também comeu o Macaulay Culkin. Mas, na hora do vamos ver, o que se deu? Pois é.
b) Israel - "Tá todo mundo se matando lá". É isso, não é? Tudo que se vê nos jornais é feito para confirmar essa hipótese. Quatro morrem em atentado, depois mais oito, depois mais doze, depois mais três. Para que serve esse tipo de notícia? Só para confirmar certas percepções do mundo. Só para criar uma sensação de problema insolúvel. Porque a coisa tá preta e tem muita gente morrendo, sim, mas isso não é a verdade de todo um país assim como a violência urbana não é a realidade nem de todo o Rio de Janeiro. Causas, conseqüências, explicações etc etc, tudo que foge dessa cobertura mais rastaqüera é sumariamente ignorado.
c) África - "Tá todo mundo morrendo de aids". Só se fala sobre isso. A África se resume, nos nossos jornais, à aids. A sensação é apocalíptica; todos os países são postos no mesmo balaio de gatos. Todo o mais é posto à parte. Botswana, África do Sul, Namíbia, Congo, Argélia etc etc: todos os países são despidos de qualquer particularidade e reduzidos a nações miseráveis cuja população está sendo dizimada dia a dia pelo vírus da aids. Alguém falou em sensacionalismo?
d) Austrália e Oceania - "Não existem". Não existem, simplesmente. Onde é que ficam mesmo?
e) Afeganistão - "Acabou". Uma história de sucesso da invasão americana ou quê? Quem saberá? Não há uma linha sequer sobre isso nos nossos jornais. Será que eles estão se matando ou vendo desenhos do Mickey?
f) Rússia - "A Rússia é igual ao Brasil, só que frio pra diabos". É ou não é? Têm uma máfia digna desse nome, corrupção às pampas, negociatas de todo tipo, população paupérrima etc. Ah, e um presidente truculento e beligerante, disposto a mandar matar todo mundo que se opõe. É isso a Rússia? Será essa a melhor compreensão que se pode ter da vida na Rússia? E a herança comunista? Como os russos encaram seu passado? Vai saber, né.
g) Europa - "Integração econômica, prosperidade e xenofobia". A Europa se resume a isso: um ar aristocrático e decadente que ainda se sustenta em uma certa prosperidade econômica que, de todo modo, parece um tanto frágil. E eles odeiam imigrantes. Todos eles.
h) China - "Grande Império do Mal que vai dominar o mundo em duas décadas mas, provavelmente, até lá já terá se transformado em uma Grande Sociedade Aberta". Ninguém olha nem para as causas nem para as conseqüências do crescimento chinês, nem para os efeitos da economia de mercado no discurso oficial do Partido Comunista ou do que for. Só se fala em números: cresceu 10%, 20%, 300%, 4000%. Se é para qualificar o país, ele é "do mal" porque não assegura a liberdade individual. Tudo bem, concordo. Mas por que será que ninguém passa a lupa no raio do país? Seja nos camponeses miseráveis ou na prosperidade urbana. Por exemplo: em Pequim, a diferença entre os maiores e menores salários é de quatro vezes. Isso é absolutamente fantástico, não? Será que ninguém quer saber disso? Porque, a julgar pelos jornais, o governo chinês é uma excrescência que só se mantém à base de uma violência inaudita, já que não dá nenhuma liberdade aos cidadãos e abandonou totalmente as premissas comunistas igualitárias. Será que é assim que a banda toca? Obviamente, não é. Neste sentido, o blog do Gilberto Scofield, correspondente d'O Globo no país, é milhões de vezes melhor e mais informativo do que o que efetivamente é publicado no jornal.

eric hobsbawm

O mundo seria um lugar bem melhor se todos os marxistas fossem iguais a Eric Hobsbawm. Sua autodeclarada inclinação ideológica é, na verdade, o melhor de seus atributos intelectuais porque ele sabe uni-la a uma observação mui arguta e abrangente do mundo, munido sempre de dados preciosos e esclarecedores. A leitura do "Era dos extremos" transmite mais a sensação de aquilo é uma história do século XX do que a história do século. É, digamos, de um "dogmatismo ponderadíssimo" que muito me atrai justamente pelo fato de não ser necessário que se concorde com ele para apreciar seus livros.
Em homenagem, um bom artigo do bom velhinho, publicado no Guardian em março deste ano:
"Did perestroika herald "the end of history"? The collapse of the experiment
initiated by the October Revolution is certainly the end of a history. That
experiment will not be repeated, although the hope it represented, at least
initially, will remain a permanent part of human aspirations. And the
enormous social injustice which gave communism its historic force in the
last century is not diminishing in this one. But was it "the end of history"
as Francis Fukuyama proclaimed in 1989, in a phrase that he no doubt regrets?"
[...]
"The belief that the US or the European Union, in their various forms, have
achieved a mode of government which, however desirable, is destined to
conquer the world, and is not subject to historic transformation and impermanence,
is the last of the utopian projects so characteristic of the last century. What the
21st needs is both social hope and historical realism."

Sábado, Abril 09, 2005

o nepotismo e o fisiologismo

Josenildo foi eleito/promovido/o que for para um importante cargo, público ou não. Para desenvolver bem o seu trabalho ele tem de montar uma equipe eficiente e compatível com seu plano de ação. O que ele faz:
a) monta uma equipe com tecnocratas que não conhece e cujas inclinações político-empresariais são em muitos casos conflitantes com as suas.
b) seleciona aliados e até parentes, com quem tem grandes afinidades e em quem pode depositar sua absoluta confiança para ajudá-lo?
Josenildo pára e pensa: "Escolherei B. É a única chance d'eu não me tornar refém da situação e ter a mínima condição de agir como planejei, ou seja, de fazer o que eu fui eleito/escolhido para fazer". Ele escolhe B. Daí surge novo dilema:
I) Escolher os mais aptos e habilidosos amigos, aliados e parentes, fazendo até concessões à técnica e apontando 'especialistas' para os cargos que julgar mais importantes; com isso, no entanto, ele estará conscientemente preterindo muitos dos que o apoiaram, cuja participação foi fundamental para que ele pudesse chegar aonde chegou, pessoas que formam uma base razoavelmente sólida de sustentação e que, se desagradadas, podem bandear-se para outros lados e deixá-lo exposto, sem representatividade, pronto para ser devorado por outros interesses mais bem articulados.
II) Tentar, dentro do possível, harmonizar competência e influência, ou seja, escolher os mais competentes dentre aquelas pessoas cujo apoio fora decisivo para seu êxito, pessoas que, de um jeito ou de outro, formam uma tropa de choque capaz de blindá-lo contra intrigas e dar um mínimo de sustentabilidade a seu cargo.
Josenildo pára e pensa: "escolho II mesmo sabendo que terei de abdicar da pretensão de montar a melhor equipe possível. Terei de nomear auxiliares muitas vezes medíocres mas que serão dignos de confiança e/ou serão capazes de me assegurar a tranquilidade indispensável ao exercício de meu cargo. O preço disso serão as acusações de nepotismo e fisiologismo. Tudo bem, ninguém disse que a vida ia ser boa".

sabe tudo

"Pelo menos no que concerna à antropologia duas coisas são certas, a longo prazo: uma delas é que estaremos todos mortos; mas a outra é que estaremos todos errados. Evidentemente, uma carreira acadêmica feliz é aquela em que a primeira coisa acontece antes da segunda" - Marshal Sahlins, na IV Conferência Decenal da Associação de Antropólogos Sociais da Commonwealth, Oxford, julho de 1993.

ratzinger e dirceu

Jornalismo é um troço estúpido que consiste em dar um tratamento muito parecido a todos os fatos do mundo. Em suma, trata-se de encaixar tudo num eixo ideológico liberal democrático. [vejam bem, o problema aqui não é o 'liberal democrático'; qualquer outro eixo ideológico de interpretação do mundo que definisse a priori todas as possibilidades do mundo seria igualmente nocivo. Como compreender a realidade através de um esquema - qualquer que seja ele - rígido e limitadíssimo?].
Um exemplo disso: quem lê a cobertura jornalística da morte do Papa percebe claramente que nossa maravilhosa imprensa trata o Cardeal Joseph Ratzinger como uma espécie de José Dirceu de João Paulo II. É como se fosse o mesmo personagem só que travestido de autoridade religiosa. Quer dizer que não há diferenças significativas entre a Congregação para a Doutrina e a Fé (ou seja lá qual for o nome exato) e a Casa Civil? Ora, francamente.

Quinta-feira, Abril 07, 2005

uma última vez

Este é um resumo do que eu havia escrito antes sobre o entrevero entre Lula e Dom Eusébio Scheid:

a) Lula
É óbvio que o presidente quer faturar em cima de um Papa brasileiro ("Dom Cláudio Hummes é brasileiro e não desiste nunca"). É óbvio também que ele se meteu onde não devia com essa história de dar pitaco sobre o conclave.

b) Dom Eusébio Scheid
No afã de aparecer diante das câmeras, preferiu se comportar como um líder estudantil e não como autoridade religiosa. Seus comentários foram inoportunos, deselegantes, agressivos e autoritários e vieram justamente em um momento em que o mundo se solidariza mais do que nunca com a Igreja. Em vez de atrair a simpatia do público, Dom Eusébio optou pelo estrelismo. Normal. Não é a primeira vez que ele deliberadamente age de forma "polêmica". É óbvio que ele gosta da idéia de não ter papas na língua (sem trocadilho). No entanto, é uma pena que não é nem bom frasista, está muito longe do nível de um Brizola da vida.
Dom Eusébio sempre se meteu na política e volta e meia desanca alguma figura pública ou "as autoridades", de modo mais abstrato. Tudo bem que ele nunca propõe nada efetivamente a não ser "mais paz" (doh). Não é nem essa a questão. O problema maior é que sua postura diante do presidente só demonstra um autoritarismo que já apareceu outras vezes, a vontade de subordinar o Estado à Igreja. "Lula e o Espírito Santo não se dão bem", disse o cardeal, com a pretensão de quem se acha em posição privilegiada para julgar quem "pode" e quem "não pode" ser católico. Pior ainda: receber ou não seu 'crivo' tem menos a ver com fé e firmeza doutrinária do que com posições políticas. E isso vindo de um sujeito cuja arquidiocese apoiou ostensivamente o prefeito Cesar Maia nas últimas eleições (foram vários encontros do cardeal com o prefeito, além de anúncios de página inteira da prefeitura no jornal oficial etc), além de ter alardeado muito seus próprios candidatos a vereador no Rio (o jornal oficial era "obrigado" a dar destaque constante às 'obras' deles) etc.
Que saudades de Dom Hélder Câmara.

(lula vs dom eusébio)

Maldito blogger. Não aceita meus posts sobre o "embate" Lula vs Dom Eusébio Scheid. Bleh.

da coluna do Ancelmo Gois no Globo (7/4/05):

Padre nosso...

Em 2004, Jorge Bittar, candidato do PT no Rio, pediu audiência a Dom Eusébio Scheid. O cardeal, segundo o deputado, recusou e explicou: “Eu não gosto do PT.” Bittar diz que sentiu “saudade de Dom Eugênio, que não se furtava a dialogar com todas as correntes”.

Quarta-feira, Abril 06, 2005

João Paulo II

Há um certo consenso: o Papa João Paulo II foi politicamente ousado e moralmente retrógrado. "Errou" ao combater os métodos contraceptivos, o aborto etc, mas "acertou" ao pedir desculpas aos judeus etc etc.
Só consigo ver nesses julgamentos o reflexo da subjetividade de quem os formula. O que se critica no Papa João Paulo II, em geral, é o fato de que em muitos campos ele foi decididamente "reacionário". Mas não se leva em consideração em nenhum momento o fato de que o Papa é um líder religioso e não um estadista moderno. Seus compromissos são com a doutrina católica, extramundanos, não com o mundo. Todo a lógica religiosa bate de frente com a idéia de atenuar as exigências para atrair o maior número possível de fiéis. Pelo fato de ter um pé nesse mundo e outro no além, a Igreja não pode jamais estar sujeita apenas ao 'mercado'.
Senão, vejamos. Contraceptivos, aborto etc. Pessoalmente, sou em geral a favor. Mas tenho o direito de exigir isso do Papa? Não creio. A Igreja não esconde de ninguém os seus princípios; estes são baseados na Bíblia, na Vontade de Deus. Como mudar? Como admitir que a Vontade de Deus mudou? O mundo pode mudar, é claro, mas deve a Igreja acompanhá-lo? Sua premissa é a de que se trata de uma instituição santa, protegida pelo Espírito Santo etc etc. O que alegar? Que o Espírito Santo errou? Que o mundo moderno fez Deus rever seus conceitos?
O mesmo se dá com a idéia de que mulheres possam virar padres. Ora, mais uma vez: idéia tipicamente moderna, baseada num credo igualitarista que eu, pessoalmente, aplaudo. Mas, e para a Igreja? A Igreja jamais admitiu que todos os homens devem ser iguais em sua vida terrena. Somos todos iguais com-relação-a-Deus, sim, mas, aqui, cada um tem sua missão. Missões diferentes, é claro. Missões complementares. Há autoridade do padre sem os fiéis? Sim. Mas existe padre sem fiéis? Não.
Ou seja: a estrutura da Igreja é hierárquica com relação a este mundo, e hierárquica de forma que todos têm seu valor em planos específicos. É uma visão holista do mundo, como se cada um desempenhasse um determinado papel no grande plano divino. A ordenação sacerdotal feminina, portanto, não é uma questão. Mulheres são iguais aos homens com relação a Deus, mas desempenham papéis específicos na Terra. Não podem ser padres porque a Igreja acredita-se resultado da obra missionária dos apóstolos e, segundo a tradição, Jesus não escolheu mulheres entre os apóstolos. Mas andava com mulheres: elas tinham seu papel, papel importante por sinal, mas não esse. Um outro papel. O igualitarismo de nossos tempos não nos deixa perceber essa lógica. Ser padre não é igual a ser rico, uma utopia a que todos devem perseguir. Uma sociedade só com milionários é um sonho até certo ponto viável; uma sociedade só de padres não é viável de forma alguma. A questão do celibato, aliás, está embutida nisso: o fato de padres não poderem ter filhos - ao mesmo tempo em que no Antigo Testamento está expressa a ordem divina de os homens povoarem a Terra, multiplicarem-se - só acentua a inversão hierárquica que ocorre conforme se trafega de um plano para o outro. O "padre" não é o ápice da vida terrena, o sujeito que é melhor que todos em todos os momentos. Ele é um sujeito que desempenha certa função e cuja sobrevivência e relevância depende de outros sujeitos que desempenham outras funções. A procriação, por exemplo. E, em última instância, todos estão igualmente vinculados a Deus, todos foram feitos à sua imagem e semelhança.
Por tudo isso é que a Igreja não pode mudar como muitos esperam. Suas premissas são distintas daquelas do mundo moderno. E é por isso que o embate entre o Papa e a Teologia da Libertação merece uma abordagem menos maniqueísta. Um ponto doutrinário: em muitos momentos a Teologia da Libertação ousou inverter a subordinação básica deste mundo em relação ao Outro Mundo; tentou-se interpretar o cristianismo como um apelo à revolução, como um salvo-conduto para que se realizasse neste mundo o Reino de Deus. Só que isso contraria diretamente os pilares doutrinários básicos da Igreja. Porque este mundo é material; não pode ser jamais um fim em si mesmo. A Igreja não pode orientar sua ação para fazer deste mundo um paraíso, isto seria desvalorizar profundamente toda a espiritualidade que está no cerne da crença religiosa. Pode-se concordar ou não com esta visão, o impossível é querer conciliar os dois pontos de vista divergentes no seio da instituição religiosa. Centrar a ação da Igreja no bem estar material das pessoas é perverter o que está na raiz da crença.
E ainda tem um outro ponto relativo à Teologia da Libertação: todo o mundo ocidental não se baseia no Estado laico, na separação entre religião e política? Então como admitir que a Igreja se torne tão explicitamente política assim? Ou será que quando a ação política coincide com nosso ideal tudo fica bem? Será que é certo só reclamar quando somos contrariados?
É claro que agora muitos poderão objetar: tudo bem, você diz que a Igreja não pode historicizar-se, "entrar" no mundo totalmente, sob pena de degradar o "Outro Mundo", mas, então, como explicar as mudanças desta instituição ao longo do tempo? Ora, fácil. Todas as mudanças, pelo menos nos últimos tempos, foram absurdamente graduais. Os pedidos de desculpa de João Paulo II, por exemplo, foram todos relativos a tempos passados já há muito esquecidos ou, no mínimo, assuntos com potencial polêmico muito restrito. Quem ousaria discordar do Papa quando ele se desculpou pela perseguição aos judeus? Pois então. A questão é essa: não há como introduzir mudanças polêmicas em uma instituição cuja autoridade é baseada na tradição e na crença na Revelação. A Igreja não pode jamais acompanhar o ritmo das mudanças na sociedade; se ela aparecer aos olhos dos fiéis como um corpo em constante mutação e redefinição doutrinária, então ela estará totalmente mundanizada e perderá toda sua substância.
Basta ver o Concílio Vaticano II, por exemplo. Em muitos aspectos, foi um ponto de ruptura, a introdução de novidades radicais. Em outros, apenas oficializou práticas realizadas há décadas. No primeiro caso, as novidades estiveram longe da unanimidade e foram abraçadas em uns cantos, rechaçadas em outros, acenderam polêmicas e, no limite, acabaram sendo gradualmente postas de lado ("retrocessos"). Em suma, dividiram o mundo católico. No segundo caso, sendo praticamente consensuais (fim das missas em latim, por exemplo), chegaram para ficar.

Terça-feira, Abril 05, 2005

desfusão

Deu no Ancelmo Góis: "O movimento Rio Cidade-Estado, que prega a desfusão, encontrou seu símbolo. Na campanha, apresentada ontem pela W/Brasil, veja só, lá está a velha conhecida dos cariocas, a capivara".
Essa é a hora em que o Papa, no meio de milhões de fiéis, abre os olhos e fala: "Capivara? Ninguém merece".
Ainda não ouvi um único argumento decente a favor da desfusão, embora a idéia de um plebiscito me pareça razoável. Discutir também não faz mal, até porque a fusão foi produto do regime militar. Mas, convenhamos, estão querendo fazer uma campanha publicitária de massas com a capivara da lagoa? Isso é celebração do provincianismo ou o quê? Aposto que o Washington Olivetto é contra a desfusão; adotar a capivara como mascote do movimento foi uma bela estratégia para denunciar que a desfusão é apenas o projeto político de madames embarangadas que gostariam de poder comprar na Daslu e acham que o certo é dar porrada em quem atenta contra os "homens de bem" (alô, Cora Rónai!). Perdoem o tom hiperbólico, mas é por aí. Quem se importa com a capivara? Alguém se importa além de cinqüentonas freqüentadoras do Jockey Club? Prioridades, minha gente. O apocalipse aí batendo a nossa porta e ainda querem me convencer de que a defesa da 'liberdade' da capivara merece minha atenção?
O pessoal é esperto mesmo. Toda a premissa da campanha pela desfusão é a mobilização política dos cariocas; seu objetivo declarado é arrancar a cidade do processo de decadência política, econômica, social e cultural. Pois bem. Que sentido faz então o cabra planejar a campanha em cima de símbolos essencialmente despolitizados? Esta é uma proposta que só sairá do papel se a população abraçar a causa. Agora, vem cá: quem vê uma capivara estilizada e se sente minimamente compelido a abraçar alguma causa?
Isso pareça aquela visita das socialites à Rocinha organizada pelo Viva Rio. Todo mundo com roupa de grife e rosa na mão e os moradores lá, indignados, dizendo que queriam trabalho e segurança, não flores.

comentários

Tudo bem que é cretino comentar no próprio blog, mas se é para responder ao que outros comentaram então vale, não? O blogger parece achar que não. Porque eu tinha escrito um comentário enorme e deu erro e sumiu tudo.

Segunda-feira, Abril 04, 2005

só papa

a) O mundo é fantástico. O homem é um ser fantástico. Veja o caso da morte do Papa: um bilhão de católicos perdeu sua referência máxima no mundo (ok, sua referência religiosa máxima no mundo). E o que se vê? Desespero? Desorganização? Desarticulação? Fragmentação? Não, meus caros. Vê-se toda uma comoção coletiva que agrega os fiéis e, face a dificuldade, renova e fortalece a fé de cada um. Vê-se mil rituais e cerimônias que, aos poucos, vão reequilibrando a balança: o homem que personificava uma pletora de valores e todo uma rede específica de relações sociais morreu, mas esses valores não morreram com ele. Pelo contrário, no luto, no velório, nos preparativos para o enterro, enfim, tudo deixa transparecer claramente uma tentativa (não necessariamente consciente; não me ponho entre os cínicos que vêem pusilanimidade em tudo) de promover a ressurreição simbólica de João Paulo II. O homem morreu; o mito, o herói nasceu. Os valores serão preservados; mais do que isso, no momento, bem longe de uma possível ameaça de dissipação, serão até fortalecidos. Deixemos de lado essa coisa moderna de ver defeito em tudo que é religioso, de ver a canalhice do homem (e ela existe mesmo) em todo lugar.
b) Do Globo (caderno especial, página 2, 04/04/05):
"Acostumado a cerimônias tradicionais que datam de séculos, o Vaticano optou por informar a morte do Papa João Paulo II usando um meio de comunicação contemporâneo: enviou mensagens de e-mail e de texto por celular (SMS) aos jornalistas menos de meia hora depois de ter sido confirmado o falecimento, ontem, às 21h37m hora local (16h37m no horário de Brasília).
(...)
Um minuto depois, redes de televisão mundiais já davam a notícia ao vivo. Os espectadores das TVs tomaram conhecimento do fato antes mesmo dos milhares de fiéis que rezavam em frente à janela do Papa, na Praça São Pedro.
O arcebispo Leonardo Sandri levou a informação aos fiéis poucos minutos depois de os jornalistas terem sido avisados. "Todos nos sentimos como órfãos nesta noite", disse o arcebispo à multidão que se aglomerava na praça. As televisões puderam captar a reação das pessoas na exata hora em que ouviram a declaração. (...)"
Gênios. É isso que eles são, gênios. E isso é um elogio sincero, sem um pingo de acidez. Estratégia brilhante é óbvio. Alguém disse cretina? Discordo. Que significam as imagens dos fiéis ouvindo o anúncio da morte do Papa? Comoção. Comoção coletiva. Só reforça a comunhão entre os fiéis; comunhão pela dor coletiva. E se reforça a comunhão pelo destaque a um elemento da crença comum a todos, então também fortalece essa crença. A lógica é simples: vejo minha dor na dor dos outros; a dor dos outros fortalece a minha dor, ou ao menos lhe dá uma importância muito particular, afinal, é motivo de dor coletiva. Logo, nosso vínculo social se fortalece. E se o nosso vínculo gira em torno de nossa fé, então nossa fé também se fortalece. Sinto dor porque o Papa era uma referência religiosa e moral; um homem de importância para mim. Também o era para os outros e a comoção coletiva - que se retroalimenta a partir de sua própria visibilidade - significa que tais valores religiosos e morais são importantes não só para mim como para todo um grupo e que ninguém deste grupo está chorando sozinho. Perpetua-se a noção de comunidade reunida em torno do ideal cristão, em torno da Igreja Católica. No momento da morte de seu líder, a Igreja, pela comoção dos fiéis, ganha uma visibilidade e uma força que a deixam mais forte do que antes. O risco da desintegração desaparece. Momentaneamente, a fé está salva e até mais intensa. A vida então pode continuar.

os grandes erros da humanidade

a) advogados: um mundo que precisa de advogados está louco. como admitir que todos nós vivemos sob regras que, no fundo, são desconhecidas? Não é por acaso que um fulano aí escreveu um livro de sucesso a respeito.
b) barbas: como se os homens já não tivessem pêlos o suficiente.
c) luaus: os instrumentos musicais arruinam qualquer possibilidade de conversa enquanto os 'músicos' tentam despudoradamente chamar a atenção para si.
d) sutiã com alças de silicone: vulgaridade pura.
e) carros particulares: boa idéia essa, juntar milhões de pessoas em um espaço restrito e aí permitir que cada use um caixote de uma tonelada para se locomover.

as palavras

Existem dois tipos de pessoas. De um lado, as sucintas, concisas, organizadas. Do outro, as outras. Gente que por qualquer coisa desata numa verborragia mental ou verbal (sim, é bem possível que o caladão ali do canto seja mentalmente palavroso, com pensamentos fluindo aos borbotões, sem nexo, método, concisão e precisão). Pedantismo à parte, uns são apolíneos e os outros, dionisíacos.
Infelizmente, eu faço parte do segundo grupo. Os posts deste blog não me deixam mentir. Todos eles, sem exceção, foram inicialmente pensados como notas curtas, breve, elegantes. Daí começa-se a escrevinhação e dá nisso: posts quilométricos, repetitivos, caóticos, exasperantes. Idéias jogadas no ventilador, espalhadas, muitas vezes desconexas, com lacunas que poderiam ser facilmente preenchidas caso eu tivesse um pouco mais de disciplina mental. A clareza perde para o improviso. De modo algum isso é uma qualidade. Entre Durkheim e Bauman, fico com o primeiro, sempre.
Pois então, é isso. Estamos aí, tentando melhorar. Essas linhas foram só para esclarecer que não se trata de estilo ou o que for. É incompetência mesmo. Gilberto Freyre - o suposto patrono 'estilístico' deste blog - deve estar dando cambalhotas no túmulo.
Ok, gostaria de não ter escrito esta última linha. Mas agora já foi.

Domingo, Abril 03, 2005

o marxismo

Muita gente acha que a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS foram as provas definitivas de que Marx estava errado. Bem, ele estava, mas não por esses motivos. Afirmar o contrário significa apenas uma intenção de adaptar a doutrina marxista para abraçar o capitalismo enquanto fim-da-história, dar um ar de inevitabilidade e irresistibilidade ao nosso mundo capitalista contemporâneo. Em suma, é uma forma de reafirmar que a história tem um sentido, que ela corre em linha reta, mas apenas substituindo o objetivo final.
Pois Marx estava errado justamente por seguir essas premissas. Ele tomou um princípio tipicamente moderno - isto é, de que todos os homens são iguais - e aplicou-o ao seu mundo particular, vendo no controle dos meios de produção o fator máximo criador de desigualdade. Então elaborou todo um aparato conceitual puramente filosófico para ordenar o mundo. Filosófico e não científico: a experiência, o mundo empírico, de forma alguma corrobora suas teses, ou seja, um estudo socio-antropológico aprofundado revelaria a ele a variedade quase inesgotável das sociedades humanas, variedades culturais que são para os homens muito mais fundamentais do que o controle específico dos meios de produção.
Não que o aspecto econômico não tenha importância, mas de modo algum sua importância é decisiva a ponto de subordinar todas as outras esferas da vida humana. Em outras palavras, Marx também absolutizou um conceito do seu mundo: a subordinação da vida social à economia. Conceito ainda em voga, diga-se de passagem, embora de modo algum totalizante. Hoje, mais do que nunca, é impossível dizer que a sociedade é uma estrutura organizada em torno de uma oposição central; a fragmentação da nossa 'solidariedade orgânica', por assim dizer, confundiu muito as coisas.
Enfim, Marx não fez ciência. Ou fez má ciência. No máximo, uma ciência desautorizada pela experiência, pela empiria. Mais ou menos como os que diziam que o mundo era quadrado. Ele criou conceitos muito úteis para entender o mundo, claro, mas de forma alguma pode-se racionalmente admitir que sua visão de mundo permanece válida. Até porque, vale lembrar, a separação entre fatos e valores no pensamento marxista sempre foi problemática. Logo, seu erro estava em suas premissas, nos pilares que sustentavam sua previsões para o futuro do capitalismo, não no futuro do capitalismo propriamente dito. Mesmo que o comunismo tivesse triunfado, fatalmente ele seria drasticamente modificado ao longo do tempo e um dia sucumbiria.
Isso vale para o pensamento marxista. E o comunismo? A ruína do seu alicerce lógico mina sua credibilidade? Penso que não. Não defendo o comunismo, mas não se pode alegar que este, enquanto sistema, fracassou. O que fracassou foi um modelo de comunismo determinado historicamente. Mude-se a cultura, as circunstâncias, a conjuntura, e o resultado pode ser outro. Porque o marxismo enquanto compreensão sociológica do mundo fracassou, mas o comunismo continua sendo uma doutrina política existente e viável porque não se apóia unicamente no marxismo, pelo contrário, sua maior força vem do ideal moderno de igualdade, liberdade e fraternidade. Igualdade, em um mundo definido largamente pelo poder econômico, pode ser entendida fundamentalmente como igualdade econômica. Pode e foi: os eventos de 1917 mostram isso. Mas o bloco soviético de modo algum encerrou em si todas as possibilidades do comunismo. Por isso, creio que, assim que a sombra do colapso soviético começar a se dissipar, muito provavelmente novas demandas comunistas vão emergir, até porque vivemos uma nova onda liberal - econômica e cultural - que, no limite, põe a perigo o "chão comum" em que se assenta a sociedade. Novamente, não é que o futuro do mundo seja o comunismo. Mas apenas que este não morreu; nós apenas vivemos em um mundo em que a ideologia dominante é radicalmente oposta a ele. O que pode mudar ou não.
Pronto, subordinei a economia à cultura. Viva.

são paulo e flamengo

Existe algo mais anti-climático do que essa conquista do Paulistão pelo São Paulo? Ai, ai, ai. Foi tudo errado: o dia, o local, o resultado do jogo. Muito sem graça.
E o anti-clímax continuou no Rio. Fluminense deu um chocolate no Flamengo. Alguém duvida que essa deveria ter sido a final? Os jogos com o Volta Redonda não vão ter a menor graça; vai ser como a final Flamengo-Santo André na Copa do Brasil do ano passado. Os times pequenos que me perdoem, mas o futebol é uma atividade em que a tradição (ainda) conta muito e dá todo um charme ao que, sem ela, seria apenas mais um jogo, mais uma final. As últimas Copas do Mundo, por sinal, sofreram com isso: times vergonhosamente desonrando suas tradições e fracassando enquanto equipes historicamente inexpressivas emergiram sem jogar lá grande coisa (e depois desapareceram em um piscar de olhos). Suécia e Bulgária na Copa de 94 (3o e 4o lugares, respectivamente), Dinamarca e Grécia na Eurocopa (campeãs em 96 e 2002, se não me engano), Coréia do Sul e Turquia na Copa de 2002 (3o e 4o). Muito chato isso.
Voltando ao futebol brasileiro: Márcio Braga na presidência do Flamengo faz o torcedor sentir falta da era Kléber Leite. Não se ganhava nada, mas ao menos havia certo comando, nem que fosse apenas no sentido de produzir mais e mais lances de marketing e transformar o clube em balcão de negócios. Nunca vi um time do Flamengo tecnicamente tão fraco quanto esse (frase que tem sido repetida constantemente nos últimos anos). E o mais triste é que a mentalidade tacanha de sempre deve prevalecer: todos os jogadores, sem exceção, serão execrados e substituídos por outros jogadores de aluguel tão ruins quanto. Um pingo de serenidade cairia bem: Dimba deve ser mandado para Pororoca do Norte, mas Júnior, Fellype Gabriel, Emerson e Jônatas ainda podem dar um caldo.
Márcio Braga certamente dirá que este é o time que o Flamengo pode ter, em função de sua delicada situação financeira. Meia-verdade: metade do time é resultado de lobby de empresários e interesses suspeitíssimos de dirigentes e o que-mais. A outra metade é 'prata da casa'. Quanto à primeira metade, a esperança é de que algum dia o critério de contratação seja mais técnico do que financeiramente interessado. Quanto à segunda, alô, minha gente, é hora de melhorar o trabalho das divisões de base. Antigamente o Flamengo formava craques; hoje tem até atacante que diz que não aprendeu a chutar quando estava nos juniores (o ex-rubro negro Jean disse isso abertamente). É hora de profissionalizar a equipe que trabalha com a molecada. Não dá para o Fellype Gabriel, por exemplo, ser promovido aos profissionais sem ter fôlego para jogar nem 45 minutos.
E outra coisa: Flamengo têm um trilhão de dólares em dívidas, certo? E aí, cadê a transparência? Essa 'austeridade fiscal' está servindo para alguma coisa? Cadê os balanços? Quanto da dívida está sendo abatida? Quais as perspectivas de médio e longo prazo? Falta transparência. E não tem como ser diferente a não ser que os clubes virem empresas mesmo. Senão a vida continua assim: uma panelinha em cada clube, todo mundo lucrando, menos os torcedores. Em larga medida, esse tradicionalismo e arcaismo do futebol carioca e brasileiro são um puro reflexo da sociedade em que vivemos, uma sociedade que ainda não se convenceu de que é senhora do seu próprio destino*. Mudar essa mentalidade já é difícil em tempos normais; tentar modernizar-se em um mundo pós-moderno que não acredita mais na capacidade humana de se auto-reformar em direção a um estado mais justo e próspero é mais difícil ainda. Acredito piamente que parte do dilema brasileiro está aí: a mentalidade moderna (a mesma evocada pela 'ética protestante') sempre chegou ao Brasil distorcida por um viés hierarquizante; as demandas de igualdade e liberdade nunca contaminaram as massas, foram sempre manipuladas pelas elites (perdoem-me pela generalização sem sentido, mas vá lá, vocês entendem). E agora, num mundo em que os referenciais comuns capazes de agregar os indivíduos de forma livre e igualitária em uma ação concentrada estão em franca decadência. Não se pode mais apelar para reformas com base no nacionalismo, na família etc. O que de certa forma é libertador, mas, por outro lado, é escravizante, porque atomiza os indivíduos, tornando-os impotentes diante do mundo.
* Obrigado, Agnaldo.

Sábado, Abril 02, 2005

O Papa

Nos anos oitenta, Cazuza tornou-se uma espécie de ícone, um dos primeiros nomes de peso a admitir publicamente que estava com aids. Seu calvário foi, em larga medida, público: são notórias as fotos que mostravam o cantor definhando a olhos vistos. Sua atitude foi muito aplaudida. Quebrava tabus. Fazia com que o público em geral parasse de ignorar a aids e atribui-la unicamente a monstros depravados. Lá estava ele, um ídolo, morrendo.
Vinte anos depois, as mesmas pessoas que aplaudiram Cazuza encheram-se de pedras para tacar no Papa. Disseram que a Igreja estava tentando fabricar um herói; que João Paulo II era egocêntrico demais para admitir sua incapacidade de comandar a Igreja e abdicar do cargo; etc etc. Curioso demais. Sinceramente não vejo nenhum diferença entre os dois casos.
A Igreja foi burocratizada, e há séculos. O Papa hoje não necessariamente precisa agir igual ao executivo que tem reuniões, assina contratos e assume negociações. A função do Papa é ser o Papa, ser o ponto central de referência dos milhões de católicos do mundo, o homem que corporifica - de forma contingencial, óbvio, como constatamos hoje - os ideais cristãos. Esta é sua missão. Que seu prestígio e influência sejam usados politicamente, doh, isso é óbvio. O que quero dizer é que o Papa pode continuar fazendo o que Papas devem fazer sem precisar mexer voluntariamente um músculo sequer. Basta que o coração continue batendo.
E a coisa vai além. Quais são os ideais que ele personifica? Ideais cristãos, naturalmente. Ideais que pregam a absoluta subordinação deste mundo ao outro mundo, ou seja: nossos pés estão aqui e nossos corações estão no céu. Não que seja possível ignorar esta realidade, pelo contrário, o mundo é condição de salvação. É preciso cumprir a palavra de Deus aqui. A morte, portanto, não é um fim, e sim uma passagem, a ressurreição.
Qual o sentido então do Papa renunciar? Qual o sentido de ocultar sua agonia? Ora bolas, do ponto de vista religioso, vejo no ocaso público de João Paulo II uma escolha muitíssimo acertada. Não se critica tanto o materialismo do mundo contemporâneo? Pois então. Esconder a morte do Papa, vivê-la enquanto drama pessoal, seria mais coerente com esta lógica do que com a lógica católica. Afinal, religiosamente, sua luta com a morte, marcada por uma a persistência resignada, tem como propósito mostrar para todos os católicos do mundo como se deve encarar a velhice, a doença e o fim. Com bravura e sem desespero, honrando responsabilidades e com o coração em Deus. Faz sentido, não? No processo, ainda convertem o homem em uma espécie de mártir. Mas reitero que isso é um efeito colateral: o mais fundamental é dar uma demonstração pública da mentalidade que a Igreja considera adequada diante da morte. E isso João Paulo II o fez. Resistiu, rezou, manteve seu compromisso com o 'cargo' de Papa e com os fiéis: a simbologia disto é muito grande e seu poder sobre os católicos não pode ser desprezado. Ele morreu como um Papa deve morrer. E um Papa deve morrer, naturalmente, de forma serena, sem jamais, no entanto, desejar o fim. Fazendo o possível mas deixando o futuro nas mãos de Deus.
O brabo todo deste imbróglio é ver o combate ao comunismo (em abstrato) como uma das conquistas do Papa, uma prova de sua bondade. O que se deu, afinal, foi o combate a determinado tipo historicamente concreto de comunismo, melhor dizendo, de sistemas totalitários que se apropriaram do discurso comunista, ou seja lá como vocês preferirem. E olha que de comunista eu não tenho nada.

psicanálise

Mui provavelmente nunca houve na história da humanidade uma ferramenta de doutrinação tão eficaz quanto a psicanálise. O esquema é simples. Fulano se convence de que tem problemas e paga um especialista para ajudar a resolvê-los. O especialista aos poucos vai inculcando no fulano a crença absoluta no ideal liberal-individualista moderno: todos os papéis sociais e relações devem ser subordinados aos indivíduos; o mundo é apenas o resultado de um punhado de pessoas separadas por aí. Creio piamente que a psicanálise está no cerne - embora jamais possa ser apontada como 'causa única ou principal' - da emergência do modelo individualista contemporâneo, do afastamento de um paradigma ético-moral (definido por homens, por Deus ou porquinhos da Índia, diga-se de passagem) e da volta a um comportamento marcado essencialmente pela equação "Bem = o que faz bem".
Tal concepção do mundo e da vida me cai mal. A psicanálise é um imenso manual de auto-ajuda (disfarçado de ciência) para o indivíduo aprender a trafegar no mundo contemporâneo (ao mesmo tempo em que também age para criar o mundo contemporâneo). Em nenhum momento se reflete sobre esse mundo. Em nenhum momento se leva em consideração de que a valorização do indivíduo é uma construção social. Não posso confiar em nenhuma 'disciplina' que já nos vê pronto e acabados desde o dia primeiro, dotados de todo um complexo psíquico. A divisão ego-superego-id (não obstante, uma divisão arbitrária e puramente literária, por assim dizer, uma vez que está além de qualquer confirmação empírica) põe o fator social puramente como inibidor do id sem jamais considerar que o fato social forma tanto o superego quanto o ego e o id, especialmente esse último; a concepção do 'id' como algo que 'só quer desejar' ignora a circunstância muito específica que isso dá, ou seja, o fato de que tudo que o id deseja são valores e situações transmitidos socialmente ao indivíduo. Só queremos o que é 'bom'. Só aprendemos o que é 'bom' em sociedade. É ela que nos estimula a ir atrás 'do que é bom', não uma pré-disposição interna, uma vontade de potência, o que for.
[Obs: ignorante, eu? Mas é claro. Meu contato com a psicanálise se restringe à leitura de Freud, à experiência pessoal e a conversas com amigos. Lacan e Jung são tão familiares para mim quanto o idioma esquimó. O que não muda em nada nenhuma das minhas crenças. Obscurantismo por obscurantismo, fico com o Pai da Disciplina, que pelo menos tinha talento literário. Nhé.]

é isso aí.

Eu não tenho o que fazer com a liberdade do homem. Não entendo e não vejo sentido nela.
Acusem-se de totalitário. Ok, agora chega.
Não sou. Meu espaço privado é o mais fundamental para mim. Há horas em que não há coerência possível, sinceramente. Só sinto uma necessidade absurda de reerguer um chão comum a todos. A liberdade não é um valor em si mesma. Construção histórica, patati-patatá. Igualdade também. Mas a igualdade - não apenas econômica ou política, mas num sentido mais abstrato, talvez, mais centrada na idéia do direito à dignidade (entendam como quiserem) do que qualquer outra coisa -, bem, a igualdade parece-me bem mais porreta. Porque a igualdade é capaz de agregar os homens e pode ser harmonizada com valores. Valores não absolutos, óbvio, mas valores. É moralismo? Talvez. Mas não há vida possível fora dos valores sociais. E liberdade para quê? O individualismo é uma invenção porreta, mas, veja só, você só usa sua liberdade para atingir fins socialmente valorizados. Ter prestígio, riqueza, o que for: só perseguimos isso porque a sociedade nos diz que isso é bom; são valores sociais construídos com o tempo. Logo, não há como não sentir um incômodo diante de um avanço cada vez mais acelerado da ideologia individualista. Não importa o que Mandeville e sua fábula das abelhas diga. Individualismo mais separa do que agrega.
Em outros termos, talvez o que esteja faltando é comprometimento. Fragmentou-se o próprio individualismo. O sujeito não é mais a unidade básica. É possível viver sem comprometimento com nada; quem tenta mostrar algum em geral é tido como tolo ("ecochatos", movimentos gays etc são nitidamente taxados como ingênuos pelos nossos baluartes do liberalismo [pós]moderno).
Dar algum sentido ao mundo é tarefa dos diabos. Pós-modernismo é o oposto disso: toda e qualquer autoridade da razão para ordenar e explicar o mundo é mandada para o espaço. O conhecimento é reduzido a pó, não vale um tostão furado a mais que o senso comum. A integridade moral do indivíduo é solapada. O Bem volta a ser "o que faz bem". Se Max Weber viu no 'desencantamento do mundo' um processo de eticização, agora se dá o oposto, o retorno. Tudo isso é difícil demais de engolir. Muito provavelmente eu jamais teria a ousadia de discutir teoricamente a validade disso ou não. Mas me aparece que ainda resta um quê de indizível, um quê de contradição entre teoria e prática, algo que me empurra na direção contrária desse pós-modernismo rastaqüera. Não que em larga medida tais concepções acerca da vida e do mundo não estejam se difundindo, infiltrando-se no senso comum. É que simplesmente não sinto nenhuma afinidade com essa forma de pensar, ela é completamente alienígena para mim. Uma absolutização do relativismo. Ora, meus compadres, assim não se vive. Uma hora isso há de mudar. Não sei como. Aliás, no momento, como se vê, mal consigo discernir minha posição. No fundo, eu não sei porque estou batendo, mas a pós-modernidade sabe porque está apanhando.

Quinta-feira, Março 31, 2005

comentário

É fácil criticar o artista que "se vende" (ugh). Mas que é bom receber comentários, lá isso é.

PIB e superávit.

PIB ficou em 1,769 trilhão em 2004.
Logo, o superávit primário ficou na casa dos 84 bilhões (4,75% do total; sei que o superávit de fato é superior a isso, mas como não tenho o número exato usei o percentual acordado com o FMI).
Conta simples e fácil de fazer. Mas nunca sai na imprensa. Só publicam a percentagem. Sistematicamente. Nunca, repito, nunca li nenhuma reportagem que quantificasse o percentual em reais. E depois reclamam quando surgem as teorias conspiratórias.

crueldade

Terri Schiavo morreu hoje. A saúde do Papa piorou.
As tragédias ficam ainda mais trágicas quando seu desfecho é simultâneo. É quase como um fim de novela, só que triste. E novela com fim triste nunca é boa. Exceto a banana do Reginaldo Faria em Vale-Tudo - que foi mais tragicômica do que triste, de qualquer forma.
Não nego que o dogmatismo do Papa seja muito discutível. Não acho que ele tenha mudado o mundo nem nada do tipo. Não tenho nenhuma simpatia específica pela Santa Sé. Mas confesso que as imagens do pobre coitado tentando falar desesperadamente reacenderam em mim uma certa compaixão que há muito eu não tinha.

sobre cotas e lobos

a) "Todo mundo no Brasil quer ser dotô": se você pensa assim, não continue lendo. O Brasil tem apenas entre 1% e 2% de sua população no ensino superior. Isso é muito pouco. Quem acha que a universidade tem que se restringir a uma elite intelectual (que curiosamente também é a elite econômica) deveria voltar para os Estados Unidos dos anos 20 e admirar os jovens aristocratas de Yale e deixar de lado o pequeno detalhe de que nem mais os americanos acreditam nisso, pelo contrário.
b) "O Brasil é um país miscigenado": máxima absolutamente verdadeira. Uma folheada em 'Casa Grande & Senzala' já ilustra bem o grau de intimidade entre senhores e escravos. Intimidade, afetividade, mas sobretudo subordinação de um ao outro. Ou seja: somos miscigenados sim, não há aqui o abismo racial que separa negros e brancos nos EUA, o que não significa em absoluto que não haja racismo. Ou, pior ainda, que seja impossível dizer quem é negro e quem não é. Ora, qualquer criança de dez anos já é capaz de apontar o dedo e dizer quem é "de cor". O fator miscigenação só entra em jogo na medida em que os referenciais pessoais (ou de grupos) que demarcam quem é negro, branco ou mulato oscilam muito. No limite, há consenso sobre quem é negro-NEGRO e branco-BRANCO; as gradações intermediárias são fluidas, cada grupo se identifica de determinada maneira. É um paradoxo: para aferir essas coisas, o senso comum - descompromissado com qualquer rigor científico abstrato - é muito mais efetivo que a ciência. E não poderia deixar de ser, afinal, "raça" é mera construção social. O que não significa que não seja um fator cultural importante.
c) "Não há racismo; negros ganham mal porque são pobres, a questão é de qualidade da educação": Esse argumento é normalmente usado junto com o da miscigenação. A idéia é de que um país miscigenado não pode ser racista. Que balela. A questão é que os limites de cada cor não são bem definidos, são fluidos. Daí o fenômeno - já observado - da "branquificação" da população: as pessoas tendem a 'clarear' o tom da pele quando se autoclassificam, seja dizendo que são brancas ou mulatas. Ou alguém acredita que metade da população é efetivamente branca, como indicam as estatísticas oficiais? Isso demonstra nitidamente que a miscigenação se fez acompanhar de uma hierarquização entre "raças". Na origem, naturalmente, está a inclinação "missionária" e "civilizadora" dos povos europeus, que depois transmutou-se em uma perspectiva evolucionista. De todo modo, o fato de portugueses dormirem com negras jamais significou que não havia preconceito, apenas que este era fluido e que, no fim das contas, relações íntimas hierarquizadas (um aparente contrasenso para nós) eram uma realidade. Basta raciocinar: o fato de homens terem sempre dormido com mulheres por acaso anula a hierarquização entre sexos que era explícita até bem pouco tempo? Todo mais, vale considerar que o racismo, enquanto tal, não é uma característica independente na cultura. É preciso sempre lembrar os vínculos tradicionais que até hoje se fazem presentes na lógica do "tudo para os amigos e a lei para os inimigos". Quanto mais próximo o sujeito, minimiza-se a importância da raça, em detrimento do vínculo afetivo (daí o argumento de "ah, não sou racista, tenho amigos negros"). O racismo só fica explícito quando dirigido a terceiros, desconhecidos; aí as diferenças de tratamento entre brancos e negros saltam aos olhos. O que só prova que o racismo brasileiro não é rígido nem propriamente ideológico no sentido de ver "impureza" nos negros, mas sim no sentido de que se baseia firmemente na subordinação do negro ao branco porque "assim que a vida é", como se os brancos tivessem até uma missão (incidental, pois não é a razão de ser das coisas) quase pedagógica (para impedir que eles "façam merda na entrada ou na saída").
d) "Não há racismo" 2: negros foram escravos, não houve políticas compensatórias. Eles agora são pobres. A reação é contra a pobreza não contra a "negritude". Bah. Bobagem isso. Se a cor de uma pessoa faz outra associá-la a determinada classe social (e a determinadas atitudes 'perigosas'), então, colega, isso é preconceito racial. Se vivêssemos na Grande Sociedade Aberta e Meritocrática que a elite anuncia, então esta coincidência entre cor e classe social estaria em franca diluição. O problema é que nossa sociedade está muito mais para o Antigo Regime estamental. Quem alega que o vestibular precisa ser meritocrático deveria advogar então o fim do direito de herança. Que mérito há em nascer em boa família e ter a oportunidade de estudar em melhores escolas? Façam-me o favor: TV a cabo, curso de inglês, biblioteca em casa, nenhuma necessidade de trabalhar para complementar a renda doméstica etc etc. Como um pobre diabo ferrado na vida pode competir? E se considerarmos o nível do ensino público, a coisa degringola de vez.
e) Vestibular: continuando o ponto acima: o vestibular é tão arbitrário quanto qualquer coisa. A maioria dos conhecimentos são descartados em seguida. Nada mais clássico de cursinhos e escolas particulares do que os professores falarem para os alunos certas "manhas" dos vestibulares. Mais uma vez: como um pobre diabo pode competir? Será que este é um método adequado para medir a capacidade acadêmica do aluno? Além do mais, cabe salientar: a nota de corte do vestibular depende da relação oferta/demanda. Alunos com notas mais baixas passarão quando menos pessoas se inscreverem. Logo, a nota não é um conceito absoluto. O conceito absoluto para determinar se o aluno está apto ou não a acompanhar as aulas é a nota mínima: na maioria dos casos, não se pode zerar nenhuma prova e em outras não se pode tirar abaixo de 3.
Do que se conclui disso tudo? Eu sei lá. Parece-me inquestionável que é necessário mudar o perfil do ensino superior no país. Do ensino médio então nem se fala. Não existe lugar-comum menos criativo do que a máxima de 'melhorar o ensino médio é o melhor remédio'. Isso requer competência e sobretudo dinheiro. Muito dinheiro. Igulamente, expandir a universidade pública é caro pra diabo. Deixar na mão de universidades particulares é um risco: para cada dez caça-níqueis há uma universidade boa. Nesse sentido, é óbvio que é preciso haver um controle maior. Quanto às cotas propriamente ditas, elas me parecem tão importantes quanto difíceis de serem postas em prática. "Quem é negro" é uma determinante importante. Nisso a miscigenação "atrapalha". O melhor caminho? Formar um conselho só com clientes da Daslu. As fotos dos candidatos seriam apresentadas e cada madame teria que responder à pergunta "você deixaria essa pessoa namorar seu(ua) filho(a)?". Só quem fosse vetado poderia concorrer às cotas.

sobre cotas e lobos

a) "Todo mundo no Brasil quer ser dotô": se você pensa assim, não continue lendo. O Brasil tem apenas entre 1% e 2% de sua população no ensino superior. Isso é muito pouco. Quem acha que a universidade tem que se restringir a uma elite intelectual (que curiosamente também é a elite econômica) deveria voltar para os Estados Unidos dos anos 20 e admirar os jovens aristocratas de Yale e deixar de lado o pequeno detalhe de que nem mais os americanos acreditam nisso, pelo contrário.
b) "O Brasil é um país miscigenado": máxima absolutamente verdadeira. Uma folheada em 'Casa Grande & Senzala' já ilustra bem o grau de intimidade entre senhores e escravos. Intimidade, afetividade, mas sobretudo subordinação de um ao outro. Ou seja: somos miscigenados sim, não há aqui o abismo racial que separa negros e brancos nos EUA, o que não significa em absoluto que não haja racismo. Ou, pior ainda, que seja impossível dizer quem é negro e quem não é. Ora, qualquer criança de dez anos já é capaz de apontar o dedo e dizer quem é "de cor". O fator miscigenação só entra em jogo na medida em que os referenciais pessoais (ou de grupos) que demarcam quem é negro, branco ou mulato oscilam muito. No limite, há consenso sobre quem é negro-NEGRO e branco-BRANCO; as gradações intermediárias são fluidas, cada grupo se identifica de determinada maneira. É um paradoxo: para aferir essas coisas, o senso comum - descompromissado com qualquer rigor científico abstrato - é muito mais efetivo que a ciência. E não poderia deixar de ser, afinal, "raça" é mera construção social. O que não significa que não seja um fator cultural importante.
c) "Não há racismo; negros ganham mal porque são pobres, a questão é de qualidade da educação": Esse argumento é normalmente usado junto com o da miscigenação. A idéia é de que um país miscigenado não pode ser racista. Que balela. A questão é que os limites de cada cor não são bem definidos, são fluidos. Daí o fenômeno - já observado - da "branquificação" da população: as pessoas tendem a 'clarear' o tom da pele quando se autoclassificam, seja dizendo que são brancas ou mulatas. Ou alguém acredita que metade da população é efetivamente branca, como indicam as estatísticas oficiais? Isso demonstra nitidamente que a miscigenação se fez acompanhar de uma hierarquização entre "raças". Na origem, naturalmente, está a inclinação "missionária" e "civilizadora" dos povos europeus, que depois transmutou-se em uma perspectiva evolucionista. De todo modo, o fato de portugueses dormirem com negras jamais significou que não havia preconceito, apenas que este era fluido e que, no fim das contas, relações íntimas hierarquizadas (um aparente contrasenso para nós) eram uma realidade. Basta raciocinar: o fato de homens terem sempre dormido com mulheres por acaso anula a hierarquização entre sexos que era explícita até bem pouco tempo? Todo mais, vale considerar que o racismo, enquanto tal, não é uma característica independente na cultura. É preciso sempre lembrar os vínculos tradicionais que até hoje se fazem presentes na lógica do "tudo para os amigos e a lei para os inimigos". Quanto mais próximo o sujeito, minimiza-se a importância da raça, em detrimento do vínculo afetivo (daí o argumento de "ah, não sou racista, tenho amigos negros"). O racismo só fica explícito quando dirigido a terceiros, desconhecidos; aí as diferenças de tratamento entre brancos e negros saltam aos olhos. O que só prova que o racismo brasileiro não é rígido nem propriamente ideológico no sentido de ver "impureza" nos negros, mas sim no sentido de que se baseia firmemente na subordinação do negro ao branco porque "assim que a vida é", como se os brancos tivessem até uma missão (incidental, pois não é a razão de ser das coisas) quase pedagógica (para impedir que eles "façam merda na entrada ou na saída").
d) "Não há racismo" 2: negros foram escravos, não houve políticas compensatórias. Eles agora são pobres. A reação é contra a pobreza não contra a "negritude". Bah. Bobagem isso. Se a cor de uma pessoa faz outra associá-la a determinada classe social (e a determinadas atitudes 'perigosas'), então, colega, isso é preconceito racial. Se vivêssemos na Grande Sociedade Aberta e Meritocrática que a elite anuncia, então esta coincidência entre cor e classe social estaria em franca diluição. O problema é que nossa sociedade está muito mais para o Antigo Regime estamental. Quem alega que o vestibular precisa ser meritocrático deveria advogar então o fim do direito de herança. Que mérito há em nascer em boa família e ter a oportunidade de estudar em melhores escolas? Façam-me o favor: TV a cabo, curso de inglês, biblioteca em casa, nenhuma necessidade de trabalhar para complementar a renda doméstica etc etc. Como um pobre diabo ferrado na vida pode competir? E se considerarmos o nível do ensino público, a coisa degringola de vez.
e) Vestibular: continuando o ponto acima: o vestibular é tão arbitrário quanto qualquer coisa. A maioria dos conhecimentos são descartados em seguida. Nada mais clássico de cursinhos e escolas particulares do que os professores falarem para os alunos certas "manhas" dos vestibulares. Mais uma vez: como um pobre diabo pode competir? Será que este é um método adequado para medir a capacidade acadêmica do aluno? Além do mais, cabe salientar: a nota de corte do vestibular depende da relação oferta/demanda. Alunos com notas mais baixas passarão quando menos pessoas se inscreverem. Logo, a nota não é um conceito absoluto. O conceito absoluto para determinar se o aluno está apto ou não a acompanhar as aulas é a nota mínima: na maioria dos casos, não se pode zerar nenhuma prova e em outras não se pode tirar abaixo de 3.
Do que se conclui disso tudo? Eu sei lá. Parece-me inquestionável que é necessário mudar o perfil do ensino superior no país. Do ensino médio então nem se fala. Não existe lugar-comum menos criativo do que a máxima de 'melhorar o ensino médio é o melhor remédio'. Isso requer competência e sobretudo dinheiro. Muito dinheiro. Igulamente, expandir a universidade pública é caro pra diabo. Deixar na mão de universidades particulares é um risco: para cada dez caça-níqueis há uma universidade boa. Nesse sentido, é óbvio que é preciso haver um controle maior. Quanto às cotas propriamente ditas, elas me parecem tão importantes quanto difíceis de serem postas em prática. "Quem é negro" é uma determinante importante. Nisso a miscigenação "atrapalha". O melhor caminho? Formar um conselho só com clientes da Daslu. As fotos dos candidatos seriam apresentadas e cada madame teria que responder à pergunta "você deixaria essa pessoa namorar seu(ua) filho(a)?". Só quem fosse vetado poderia concorrer às cotas.

Segunda-feira, Março 28, 2005

veja

O senso de sutileza do pessoal da Veja é engraçado. Na última edição saiu uma "reportagem" no mínimo curiosa intitulada "Idéias que paralisam", uma espécie de esforço de desmistificação contra os clichês que, "magnificados pelo bombardeio da informação, se transformam em falsas unanimidades que atrapalham a vida das nações e dos indivíduos". A origem destas idéias paralisantes? "Visões ideológicas ultrapassadas, conformismo intelectual, incompetência ou a simples e pura preguiça de pensar". O mote do texto, como se vê, é a suposta desconstrução de lugares-comuns que não explicam nada e ainda emperram a ação do homem.
Sendo a Veja o que é, não causa surpresa o fato de que, no fundo, se trata de um libelo anti-esquerdista. Imagino o editor bondoso claramente atiçando os leitores: 'eis aqui o subsídio para rebater os argumentos de seus amigos comunas'. Tudo muito bem; deixemos de lado até mesmo a postura da Veja de jamais admitir que está comprometida com uma ideologia muito específica. É muito demodé isso de denunciar o caráter ideológico e pouquíssimo "natural" desse afã da modernidade. Também seria fácil demais apontar que a reportagem não tem nada de desmistificadora, pelo contrário: só substitui dogmas da esquerda por dogmas da direita. O beabá do liberalismo para molengões (se eu fosse chegado a anglicismo meteria um "for dummies" aqui).
Deixemos tudo isso de lado. Alguns argumentos são até razoáveis, mas o que me chamou a atenção mesmo foi o item relacionado à violência. Segundo a revista, é uma ilusão pensar que esta, no Brasil, é "antes de tudo uma questão social". A Veja é taxativa: tudo bem, pode até ter raízes também na questão social, mas a violência é sobretudo estimulada pela corrupção, pela falta de treinamento e de equipamento dos policiais, pela ausência de uma polícia de fronteira que consiga diminuir o contrabando de armas e drogas, pela leniência dos governantes com os bandidos, pela lentidão do sistema judiciário etc. Argumentos à primeira vista irretocáveis.
Será? Humildemente eu discordo. Não dos argumentos em si, mas da sua não vinculação à "questão social". Veja bem: a sociedade brasileira é palco de uma tensão absurda entre meios e fins. Um verdadeiro gargalo. Em diversas áreas, o Estado age (ou deveria agir) no sentido de atenuar essa tensão. Mas é uma ação limitada, não só pelo pensamento hegemônico liberal/individualista (por favor, sem nenhum carga pejorativa) e, principalmente, pela falta de receitas. Somos um país pobre e endividado; não é a própria Veja que advoga a noção de "austeridade fiscal"? Pois então. Será que eles não notaram o quanto as "soluções" apresentadas aumentariam os gastos públicos? Uma polícia de fronteira! É óbvio que necessitamos disto. Mas vocês já viram o tamanho do nosso território fronteiriço? Treinar policiais, comprar equipamentos adequados, pagar salários justos a eles: tudo isso custa, e muito. Uma enormidade.
Podem dizer: balela. Bogotá conseguiu diminuir a violência. Por que só o Brasil não há de diminui-la? Bem, vocês já viram o tamanho do país? O tamanho de nossa população? Mais ainda: o nosso nível de desigualdade? Sejamos pragmáticos. Vivemos dentro de uma ideologia em que a moral emancipou-se da religião; a "consciência coletiva" esvaziou-se. Não podemos esperar o nível de disciplina da Arábia Saudita. Nosso mundo emancipou-se do "além", do transcendente; somos todos mesquinhamente mundanos em nossas vidas, nossa busca pelo sucesso, pelo prazer, por um "bem" que não é mais absoluto e sim construído. Somos individualistas. Individualismo pressupõe igualdade, ou ao menos chances razoavelmente iguais. Em um país tão descaradamente hierarquizado como o Brasil, tal mentalidade há de causar choques. Especialmente nos segmentos mais rasteiros da população, naquela gentarada que sofre na pele essa hierarquização. Sejamos francos: pobre não vale nada no país. Nossas elites (odeio essa expressão) implantaram um modelo de Estado teoricamente europeu sem jamais deixar de lado nossa herança cultural; o favor, o jeitinho, o conchavo etc etc.
Como negar então as causas sociais da violência? Que estímulo tem o sujeito pobre para obedecer às leis e seguir vivendo numa lógica em que não há espaço para ele? O status está logo ali ao lado, depende de dinheiro, não mais de sangue. É tão fácil de mudar de situação mas, pelos meios legais, tão difícil. Doh.
É óbvio que isso não quer dizer que pobre = ladrão. Besteira isso. Sabe-se que a maioria dos moradores de favelas trabalha, segue a lei e tudo mais. Isso apenas reflete o fato de a mentalidade holista, hierarquizante, foi profundamente introjetada e ainda resiste bravamente. Mentalidade em geral permeada por uma ética religiosa extramundana (vide evangélicos). Nisso a "bandidagem" é muito parecida conosco: trata-se de uma fatia da população mais humilde que se tornou tão intensamente intramundana quanto nós. Conforme tal mentalidade for se entrincheirando mais nas favelas, a criminalidade aumentará. E isso é um problema crescente na medida em que o mundo atual dá ao indivíduo uma capacidade de destruição ímpar. Segurar isso com uma política puramente repressiva é passar atestado de que somos hierárquicos sim e que igualdade (mesmo de direitos) não vale nada para a gente. Será que já não passamos tempo demais fazendo isso? Não percebem que o custo social é imenso? Será que vale mais a pena reprimir para manter a segregação do que pensar numa reestruturação mais profunda?

Domingo, Março 27, 2005

como eles roubaram o jogo

"Como eles roubaram o jogo", de David Yallop, vale a pena ser lido por qualquer um que curta futebol e/ou teorias conspiratórias. Especialmente porque as teorias em questão têm muito pouco de realmente conspiratórias; o que o autor fez foi coletar depoimentos e fatos e sistematizar todos os bochichos que correm no mundo do futebol desde que o Havelange assumiu a presidência da FIFA.
No meu caso específico, não houve nem chance de não gostar do livro. Porque desde a primeira página eu escolhi deliberadamente acreditar em tudo que estava escrito ali. Afinal, que Havelange sempre teve ligações íntimas com a ditadura, que a construção de estádios Brasil afora foi uma forma das mais descaradas de garantir a aprovação do governo etc etc, isso "todo-mundo-já-sabe" (ou seja, eu já acreditava). E o livro só veio me dar mais subsídios para achá-lo um crápula. Suas declarações cretinas a respeito de si mesmo; a promiscuidade da FIFA e a junta militar Argentina em 1978; as negociatas envolvendo a ISL (que comprou por preço fixo os direitos de marketing do futebol e viu seus lucros aumentarem exponencialmente, ao mesmo tempo em que dava uma 'mesadinha' para o dr. Havelange); o clientelismo explícito na campanha para eleger-se presidente da FIFA (campanha paga com direito da antiga CBD e toda ela baseada em promessas de aumentar o número de times na Copa do Mundo e na distribuição farta de cargos, viagens e ingressos); etc etc etc.
Enfim, entretenimento de primeiro. Não é recomendável para chatos/exigentes/o que for que acham teorias conspiratórias meras brincadeiras de criança e que acreditam piamente que o mundo é bem mais simples e menos interessante do que deveria ser.

esquerda, direita, volver.

A esquerda marxista me enche de vergonha. Porque hoje não há como ser marxista sem aderir a um anti-intelectualismo grosseirão. Materialismo histórico e tudo mais; como sustentar isso? Como fingir que se trata de uma ideologia compatível com a valorização do indivíduo? Não há adjetivo mais danoso para qualquer projeto político do que "totalitário". Sinal dos tempos; não importa se fulano gosta ou não do individualismo característico destes tempos. Ele é uma verdade.
O problema é que a direita em geral é igualmente bobalhona. Ela está presa em um paradoxo esdrúxulo: no plano político-econômico, fica toda ouriçada pelo livre mercado e pelo liberalismo extremo; no plano moral, quer encarcerar o indivíduo dentro de valores sociais (coletivos) rígidos. É anacrônico; não há como tal movimento resistir à pressão dos tempos.
De todo modo, qual a saída? Eu não. Sinceramente, não tenho muito o que fazer com a liberdade individual. Acho que o homem inventou a melhor coisa do mundo - a religião - mas foi burro o suficiente para arruiná-la. E agora não dá para voltar atrás; já gritaram que o rei está nu e não dá para fingir que só nós somos os eleitos capazes de ver a sua roupa.
A questão também tem um outro lado. Ninguém mais tem a ingenuidade de achar que a sociedade é tão flexível e invertebrada que pode ser moldada ao nosso bel-prazer. Não há vida possível sem a naturalização - em graus variáveis - de determinados valores coletivos. Deu no que deu: sabemos que só acreditamos em arbitrariedades mas não conseguimos nos livrar delas. O mundo é legal, né?
Eu me pergunto quanto tempo essa situação pode durar. Também me pergunto o que pode vir depois. É óbvio que não sei, mas alguma coisa virá. Fim da história, meu ovo. Chutando, creio que de algum modo a dimensão do sagrado precisará ser recuperada, o que não significa necessariamente que o será na esfera religiosa.
É, bicho, a coisa tá preta. Até porque, veja só, tudo aí de cima é muito mais uma ligeira adaptação pessoal de correntes de pensamento que circulam por aí do que impressões verdadeiramente originadas da experiência individual. Ou seja, uma construção social que, obviamente, não é válido para todos os grupos mas que, para o bem ou para o mal, afeta diretamente aqueles por onde eu transito. Uma sociedade que se estabelece no argumento de que o mundo não vale lá muita coisa e de que a vida não faz nenhum sentido. Que idéia bizarra. Valeria mais a pena ter nascido na Idade Média ou em uma família de evangélicos (neocons, ou muçulmanos, ou judeus ortodoxos, ou espíritas renhidos ou o que for). Quando se naturaliza a idéia de que nada é natural e de que a distinção bem-mal é uma ilusão, bem, aí estamos ferrados.

Elio Gaspari

Preciso admitir: não há articulista político mais arguto do que o Elio Gaspari na imprensa brasileira. À parte as conexões escusas com o general Golbery, à parte a americanofilia às vezes desmedida, não há como negar - eu, pelo menos, não consigo - que o Gaspari é um dos poucos que escreve mais com o cérebro do que com o estômago e, além disso, defende, de forma coerente, uma espécie de capitalismo mais responsável que, foge do liberou-geral dos tucanos, para quem capitalismo bom é aquele pago pelos outros. Porque é impossível ignorar o quanto a implantação do capitalismo no Brasil assentou-se em relações de trabalho e de produção tipicamente não-capitalistas. No limite, isto se verifica nas fazendas onde ainda hoje existe trabalho escravo, mas na verdade trata-se de um fenômeno muito mais amplo.
Abuso de mão-de-obra infantil, trabalho em troca de comida e moradia, fazendeiros que obrigam os empregados a comprarem em seus próprios armazéns, e por aí vai. A própria prática disseminada na classe média de não assinar carteira de empregada vai nessa. São os efetivos colaterais de uma ordem econômica estabelecida sobre a mais profunda desigualdade. O resultado é que todas as garantias legais são postas no papel, mas, na prática, quanto mais se desce na estratificação social menos elas se verificam. E o neoliberalismo dos oito anos do governo FHC repetiu isso: flexibilização e liberalismo só em cima do povão. Na cúpula, o reino da troca de favores, licitações suspeitas etc. Muito pouco para quem prometia modernizar o país. Sivam, Proer, reeleição... a modernidade e a impessoalidade da lei só valeram mesmo para quem tem pouco. E o mais curioso é que o cientista social que melhor soube identificar o caráter hierárquico da cultura brasileira, o antropólogo Roberto DaMatta, apoiou incondicionalmente o governo FHC. Bleh.
Isso pode soar panfletário e talvez seja; no fundo é mais uma expressão de ressentimento. Até porque esse conceito de "ter pouco" há muito tempo não está mais restrito ao Seu Zé: está afetando cada vez mais a classe média e afins. E aí nós temos essa histeria: farinha pouca, meu pirão primeiro. Eu posso não assinar a carteira da minha empregada há anos, mas agora que corro o risco de não ter mais a minha carteira assinada é que fico amargurado e descrente do futuro do país.
Bom. Que fique então esta nota do Elio Gaspari. Assino embaixo. Brilhante.
Qual PT, companheiro Lula?
Lula diz que o PT é um dos responsáveis pela anarquia instalada na base e na cúpula política do governo. Qual PT? Há o PT do José Dirceu, o do Antonio Palocci, o da Marta Suplicy, o do Delúbio Soares. Há o das franjas da banca em São Paulo, o dos charutos Cohiba em Brasília e o das comunidades miseráveis nas periferias metropolitanas. O responsável pela anarquia chama-se Lula. Como ele mesmo diz: “É minha responsabilidade e eu não vou abdicar dela nem partilhá-la”.
Seu erro foi cometido na formação do governo, quando deu ao comissário José Dirceu, chefe do Gabinete Civil, funções de coordenador político. Montou um híbrido de elefante com helicóptero. Mais tarde, transformou o ministro Aldo Rebelo em bacalhau de porta de armazém. Fala-se em mudar ministros e a primeira coisa que se faz é colocar Rebelo na entrada da loja. A base parlamentar do governo virou geléia porque, quando presidente da Câmara, o deputado João Paulo Cunha jogou-se num projeto pessoal, nocivo e suicida, buscando a própria permanência no cargo. Lula poderia ter parado essa maluquice com um sopro.
Pode-se suspeitar que o presidente começou a sentir-se desconfortável com a turma do Cohiba. Nem tanto pelo que ela tenha feito, mas pelo que se poderá dizer que fez. Sua decisão de explodir a reforma ministerial sugere que poderão acontecer boas novidades. Algumas das escolhas da semana passada reforçam essa impressão, tanto pelo lado de quem foi escolhido, quanto pela lista dos que não foram atendidos. É Lula quem deve escolher o tipo de PT e de costumes com que pretende voltar a pedir votos nas ruas. Ninguém pode fazer isso por ele.

Quando a vidinha fica menos nhé

Às vezes pensar demais faz mal sim. Porque é a vidinha mais-ou-menos que separa os homens dos meninos: é quando tudo está mais bleh do que nunca que se percebe o poder da arte. É quando se ouve algo como "Eye in the sky" do Alan Parsons Project - ou seja lá o que for o seu veneno - e de repente você começa a pensar que talvez não seja bem por aí e que tudo pode ser diferente e sei-lá-o-que-mais. Você pensa que a vida é muito mais que nhé e agradece o fato de que alguém em algum lugar conseguiu capturar a essência das coisas (tá, não é a essência, é o que a gente gostaria que você a essência).
É como o Carlos Drummond de Andrade. Na maior parte do tempo ele era um velhinho piegas e chatos. Mas ele escreveu dois versos que dizem tudo. Devia ter parado por aí, até porque o resto do poema só enfraquece a imagem fantástica que ele conseguiu construir com três palavras: "Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo".
Sinceramente, eu acho poesia um erro. Aqui e acolá, muito às vezes, no entanto, rola um clique. É o caso - e resiste a qualquer tentativa de intelectualização. Porque nada explica o fascínio desses versos. É como se ele tivesse dito algo indizível. "Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo". É bonito. Diz tudo.
Às vezes me inclino nessa direção: essa é a boa arte, a que diz tudo de uma só vez. É como li em algum lugar: a ciência fatia a realidade e diz uma coisa de cada vez a respeito de cada pedacinho individualmente; os mitos dizem tudo ao mesmo tempo. É óbvio que ainda assim esse negócio de mitologia é tudo uma bosta, mas... de vez em quando tendo a achar que esse papel cabe hoje à arte, ou pelo menos à pintura, à música e à poesia. A literatura é outra história; disso a gente fala outro dia.
"Eu tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo". É, é bonito.

Sexta-feira, Março 25, 2005

Luiz Inácio Moreira Salles da Silva

Se o seu sobrenome não é Barreto nem Moreira Salles, as chances de que você vire um grande cineasta brasileiro diminuem drasticamente. A não ser que você seja um apaniguado do Daniel Filho ou da Paula Lavigne, que fique bem claro. De qualquer modo, não é disso que se trata aqui.
O importante por ora é que, felizmente, todo o talento que falta, digamos, a Walter Salles sobra em João Moreira Salles. O que é um alívio.
Vejamos os últimos filmes de cada um: o primeiro recebeu inúmeros rapapés por um filme-de-estrada muito do chinfrim que começa parecendo episódio d'Os Trapalhões (dá para imaginar a vinheta da Globo anunciando: "Dois tremendos caras-de-pau aprontam mil e uma confusões por todo o continente") e depois vira uma glorificação estúpida de um emocionalismo infértil. Isso é "Diários de motocicleta": o fabuloso, magnânimo e messiânico Che Guevara e seu amigo trapalhão (como o velhinho do Granado pode ter gostado de se ver reduzido a um alívio cômico tão grotesco?) passeiam por cartões postais da América Latina e, como se deparam com um monte de indíos sujos e feios, decidem que o mundo é ruim. Daí Che vira herói do leprosário e é um cara tão legal que a câmera faz questão de fechar um close absurdo na hora em que ele tem a audácia (gasp!) de cumprimentar um leproso sem luvas.
Ora, faça-me o favor. Só o fato de que o filme aplaude - e essa cena do close é um bom exemplo - tudo isso já é lamentável o suficiente. Mas a coisa fica pior quando Che começa a articular seu discurso: somos uma única raça mestiça por toda a América do Sul. Vá pastar, compadre. Que em 2005 o diretor ainda compre essa teoria racial para justificar um suposto panamericanismo, isso é inadmissível. Se Walter Salles parasse um pouquinho de idolatrar seu personagem talvez percebesse o quanto esse discurso ignora diferenças e rivalidades regionais que são importantíssimas para os povos em questão. Porque o ponto é o seguinte: Che foi incapaz de ver diferenças - sociais, culturais etc - entre aquela patotada ameríndia, mas Walter Salles não precisava seguir o mesmo rumo. Sua salvação é uma salvação imposta, de fora para dentro, que ignora o fato de que as sociedades ali em jogo se consideram muito diferentes umas das outras. Essa pretensa identidade panamericana estará sempre fadada ao fracasso porque não reconhece isso: não reconhece, por exemplo, que bolivianos e chilenos se odeiam e que não há argumento racial que possa mudar isso.
Se ninguém aqui se sente igual, então o bom e velho Che deveria mais é voltar para os livros e tentar pensar mais um pouco. Porque tudo que ele faz no filme é promover uma identificação entre uma suposta unidade racial e uma outra unidade "de classe" (nativos/operários explorados x brancos/imperialistas) que não existe senão na sua própria cabeça. O fato de que ele fracassou redondamente na sua tentativa de promover a "sublevação" do continente é a melhor prova disso. "Diários de motocicleta" ignora esse fato e serve apenas como um bombom nostálgico para quarentões que sentem saudades da época em que tudo era mais bem definidinho. Eu sei que estou soando perigosamente como o Arnaldo Jabor - e não é essa, em absoluto, a intenção - mas não dá para evitar. Porque o Jabor faz uma carreira em cima de uma idéia básica: negar todos os pontos de vista já defendidos por ele e, no processo, ridicularizar toda a esquerda nacional. Sua "crítica" ao comunismo é patética porque ele imprime uma perspectiva de hoje - e mesmo assim, só uma dentre todas as perspectivas possíveis - para analisar idéias e projetos de mais de trinta anos atrás, o que o leva à conclusão de que tudo seria bem melhor se, naquela época, todos pensassem como ele pensa hoje. Ou seja: ele simplesmente atropela o fato de que idéias são construções históricas e sociais. É mais ou menos a mesma coisa que os críticos de "Herói" fazem: acusam o filme de totalitarismo, não percebendo a insensatez que é exigir que um filme passado na China antiga glorifique o individualismo e os direitos humanos. Até porque quando Hollywood faz isso, todo mundo cai de pau.
Mas, novamente, o ponto não é esse. O ponto é que "Entreatos", de João Moreira Salles, foi um dos melhores filmes do ano passado. Aguardo ansiosamente o DVD. Por quê? Bem, depois eu volto a esse assunto.

O como

Um dos maiores problemas dos blogs é o estilo, a forma. A outra é o conteúdo. Doh. Enfim, escrever é complicadinho e há muitas maneiras distintas de se dar mal. Porque quem escreve em blog acha que tem algo para compartilhar com o mundo e daí para uma (suposta) erudição desmedida é um pulo. Que o digam esses caras. Não há nada mais triste do que palavras sofisticadas que expressam idéias simples.
Talvez isso seja uma questão minha. Acontece que o que torna a internet muito menos agradável está em boa parte na forma como as pessoas escrevem. Estrangeirismos e citações em inglês são a norma e isso é odiável. Todo mundo fala inglês etc etc, mas não há desculpa para recorrer constantemente a este idioma em um textozinho qualquer. Vixe. Não se trata de nacionalismo; talvez seja mais uma questão de senso do ridículo. [Inserir um "that´s the issue" aqui]. Como língua, o inglês é tão bom/ruim/etc quanto o português. Para quê então recorrer à língua de Shakespeare (chavão especialmente dedicado aos jornalistas)? Não há motivo. Tudo pode ser dito em bom português. Ser até melhor dito em português, uma vez que muita gente boa mundão afora mal sabe falar lé com cré em inglês e se arrisca mesmo assim. Do que resulta o seguinte quadro: boa parte dos blogs nacionais insistem em anglicismos desmedidos e, em geral, o único motivo para isso parece ser uma vontade doida de se aproximar (simbolicamente) dos US of A. Em bom português, não existe coisa mais tupiniquim e colonizada do que isso.
Eu só digo uma coisa. Não há prosador melhor em língua portuguesa do que o bom Gilberto Freyre. Casa-Grande & Senzala é genial e patati-patatá (e é mesmo - seu poder ultrapassa em muito as suas linhas; é só quando o leitor tenta sistematizar e harmonizar tudo que leu que percebe o quanto foi envolvido, o quanto aquilo tudo realmente fez brotar cheiros e imagens quase atávicos; como Freyre conseguiu a mais perfeita integração entre forma e conteúdo do século XX, seu livro mesmo sendo tão rico em "antagonismos em equilíbrio" quanto o país a que ele descreve), mas é a justeza de suas palavras que marcam mais do que tudo.
Tudo bem, nosso autor lança mão de um sem-fim de informações e relatos para construir sua narrativa, mas é precisamente pelo estilo que ele mata o leão. Uma oralidade despojada, coloquial, atenta aos detalhes, aos aspectos mais humanos (e nisso dando conta dos elementos mais, digamos, 'estruturais') que ele provoca uma imersão completa naquela experiência da casa-grande-e-senzala. Gilberto Freyre escreve com afeto, uma escrita que transborda de nostalgia e também de ambivalência e que resiste a sínteses, resiste à imposição da coerência científica, ao mesmo tempo em que é profundamente bem encadeada e convincente. Ele não nos faz amar o Brasil escravocrata daquele tempo, mas nos liga afetivamente a ele e nos enreda nos seus antagonismos. A crítica àquela sociedade é possível e está presente, mas, de uma forma ou de outra, é como se criticássemos nossos avós. Condenscendentemente, a distância entre fato e valor (bem, nosso valor, que fique bem claro) é atenuada pelo afeto (quantas vezes escreverei essa palavra em um único post?). Bem, redundâncias à parte - e minha desculpa é que elas também se fazem presentes em CG&S - Gilbertão fica valendo como norte, como modelo para este blog. Um patrono, digamos assim. Que tudo dê certo. Não seriam poucos os que se beneficiariam de uma lida rápida de sua obra, nem que seja apenas para verificar a possibilidade de unir erudição e simplicidade.

Já começou errado.

Basicamente, o post anterior tinha dois propósitos: começar logo esse blog e explicar o nome. Ou seja: tudo que é de praxe. E eu esqueci de fazê-lo. Assim é a vida.
A compensação é que não há nada para ser explicado quanto ao nome. Quer dizer, vem de um disco dos Fabulosos Cadillacs, que são porretas. Mas não tem nenhum significado além disto; era preciso um nome e eu tratei de achar um. Não me odeiem ainda.